quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Manual do escoteiro-mirim hardcore

De Herzog a Spielberg, a noção de mistério e aventura contida na idéia de se aventurar no meio do mato é uma coisa que sempre me fascina. Já tinha ouvido falar da história do coronel Percy Fawcett e sua obsessão em encontrar o El Dorado na Amazônia (minha mãe é espectadora assídua do History Channel), então li Z, a Cidade Perdida*, de David Grann, como se tivesse sido escrita especialmente pra mim, sensação que só tive esse ano quando li o Mason & Dixon do Pynchon.

No contexto em que o coronel Percy Fawcett viveu a maior parte da sua vida, acreditar na existência de cidades perdidas era uma realidade científica. Fawcett, entediado com a rotina militar, fez um curso de explorador na Real Sociedade Geográfica (sim, vivia numa época em que havia curso para se tornar explorador) e saiu de lá com um contrato para delimitar a fronteira entre Brasil e Bolívia, no meio da Amazônia, uma experiência tão marcante quanto surreal (e aqui volto a pensar em Mason & Dixon) onde Fawcett foi apresentado à piranhas, formigas saúvas, núvens de mosquitos e o temível candiru, peixe minúsculo e espinhento que entra pela uretra e pode provocar a perda de partes sensívels da hombridade de um explorador – na melhor das hipóteses.



Ainda que, a certo momento, a descrição de mais de cinquenta vermes nos cotovelos de um membro de uma das expedições seja o suficiente pra que nunca se deseje uma aventura amazônica semelhante, Fawcett, que era tremendamente antissocial e não se sentia muito à vontade com os próprios filhos, preferia isso a vida urbana.
Com o tempo, Fawcett torna-se mais e mais obcecado com a idéia de encontrar a prova da existência de uma sofiticada civilização perdida na Amazônia, e a descoberta de Macchu Piccho por Hiram Bingham só alimenta sua obsessão.

Um dos aspectos mais interessantes de sua história é que, assim como o personagem que inspirou (estamos falando do próprio Indiana Jones, no caso), não faltaram elementos pulp à sua vida: desde seus rivais, como o milionário americano Alexander Rice, que dispunha de tecnologia altamente avançada para os padrões da época (como rádios e hidroplanos) e que desejava encontrar Z antes de Fawcett (depois, quando Fawcett despareceu, o próprio Rice tentou encontrar o rival), ao potencial charlatão com o nome muito pulp de Savage Landor, que escrevia sobre peripécias altamente improváveis ao redor do mundo, passando pelo membro traíra da expedição (Fawcett acreditava que todo grupo possui um Judas).

O texto de Grann é cheio dos vícios de linguagem de um escritor best-seller, com os ganchos meio bregas no final de cada capítulo (tradição, diga-se de passagem, herdada dos seriados de aventura que Fawcett provavelmente inspirou), e que dão um ar meio Michael Crichton pra narrativa toda – o que não é ruim, ressalte-se. Mas dando um desconto pro cara no aspecto técnica literária, a pesquisa que Grann faz é deliciosa. Desde resgatar as conexões de Fawcett com Conan Doyle e seu papel como inspirador de O Mundo Perdido (o original, não o de Crichton), até recapitular a história de outros obcecados pelo El Dorado, como Lope de Aguirre, a Cólera dos Deuses em pessoa. A certa altura, quando Fawcett já desapareceu na Amazônia com seu filho mais velho e o amigo deste, em sua última viagem, Grann recapitula rapidamente o destino de vários dos que tentaram resgatá-lo: uma sucessão de aventureiros sem-noção alguma do perigo, um terminando pior que o outro. Há o ator de filmes B que acaba sendo sequestrado por índios, há o explorador que, presenteado com pombos-correio, os mandou aos poucos descrevendo sua descida ao inferno até a morte, há os que enlouquecem e se matam no meio da selva, e os que são mortos pelos índios. É o tipo de livro tão divertido que eu fico desejando que não acabe nunca (o que, no caso do supracitado Mason & Dixon, é mais ou menos o que acontece).

Único porém, em relação à pesquisa do livro: após tantas tragédias pessoais e familiares motivadas pelo desejo de fama e glória envolvendo Fawcett e a idéia de civilização perdida na Amazônia, a possibilidade levantada ao final do livro, vinda de um pesquisador (Michael Heckenberger, google se quiser), que supostamente encontra a cidade perdida, me motivou certa desconfiança – vou esperar pelo artigo na National Geographic antes de levar a hipótese mais a sério. Como resultado prático, posso dizer que depois de ter lido Z, fiquei com uma tremenda vontade (aliás, prometi pra mim mesmo que um dia ainda vou fazer isso) de escrever um livro estilo “aventura para garotos”.

*Eu já havia comentado da capa desse livro lá no Sobrecapas, com entrevista com o capista Christiano Menezes.

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