terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Em Avatar, o meio é a mensagem


Do muito do que se tem falado sobre Avatar – o orçamento estratosférico e a bilheteria idem, o roteiro funcional e a reação indignada da direita americana com o tom ecológico-pacifista do filme, e tudo o que o filme promete –, um aspecto pouco observado é que, em sua promessa de reinventar a experiência de ir ao cinema, o filme tem levado às salas um público que não havia ainda experimentado o cinema 3D. Público este que, talvez, estivesse reticente com a oferta até então dominante de filmes de animações infantis e produções B. Mais do que isso, tem trazido o público em geral de volta aos cinemas, em época que muitos abdicam da experiência coletiva da sala escura e da imersão da tela grande. Com tudo o que Avatar promete, baixar o filme para vê-lo num laptop perde o sentido. É a forma que Hollywood encontra para combater a pirataria: fazer filmes que justifiquem o preço do ingresso e lembrem o público do que significa ir ao cinema.
E tanto melhor que Avatar é o primeiro filme em que a experiência do 3D está intrinsecamente ligada a sua história. Curiosamente, muito pouco se têm da impressão de ter “coisas vindo na sua cara”, pelo contrario, é o espectador que é deixado sempre a ponto de entrar no filme, quase como se pudesse afastar arbustos ou névoas e explorar a selva de Pandora. Essa cautela em quebrar a quarta parede faz com que a experiência de assistir Avatar em 3D torne-se análoga à sua história: o deslumbramento pela sensação táctil provocado pelo filme em grande parte do público, (que em grande parte descobre o 3D com Avatar), corre em paralelo com o deslumbramento do protagonista Jake Sully em explorar o mundo de Pandora e recuperar os movimentos de sua perna – a cena em que Jake, já no corpo de seu avatar, corre por uma plantação e sente a areia em seus pés é símbolo disso.
Todo o filme está estruturado sobre o conceito de conexão e sensação: o soldado paraplégico que volta a andar em um corpo alienígena, a conexão direta dos Na’vi com animais e plantas, os soldados e sua conexão com armaduras robóticas, mas também, no momento que é preciso que se coloque óculos especiais para assistir o filme, entre o espectador e a tela. Não deixa de ser curioso que a forma que James Cameron tenha encontrado para contar sua história – que versa, basicamente, nossa falta de conexão com a natureza e um certo horror à desumanização provocada pela tecnologia – seja, justamente, usando a mais avançada tecnologia do momento.
Texto originalmente publicado no jornal CineSemana

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