sexta-feira, 25 de maio de 2012

Há sombra debaixo desta rubra rocha, Drake

Se há um grande mérito nos jogos de Uncharted (e na minha opinião, há muitos) é o modo como trabalham os clichês do gênero ação/aventura de um jeito que não chega a ser inesperado (clichês nunca são), mas cheios de um vigor empolgante. Você reconhece os padrões não com o tédio da falta de idéias tanto narrativas quanto de linguagem que assolam os atuais blockbusters, mas como se redescobrisse o sense of wonder original que justificou esse clichê existir, em primeiro lugar.

E, é claro, o modo como cada fase é estruturada, sua linguagem visual que transforma a experiência num imenso plano-sequência, contribui para o seu aspecto mais próprio, a imersão. A verdade é que nenhum livro ou filme em anos recentes me deu as mesmas sensações - o deslumbramento, a vertigem, o choque-do-novo – que Uncharted me deu (principalmente o segundo e o terceiro da série, o primeiro é bastante banal). Uma prova disso: a sequência do avião de carga, em Uncharted 3: Drake’s Deception, é copiada tal e qual o climax de 007 Permissão para Matar, mas conduzida com a empolgação de quem restaurou e trocou o motor de um carro antigo de coleção. Os clichês existem por um motivo: eles funcionam, ou algum dia funcionaram. Descobrir o que os faz funcionar e jogar com isso, ao invés de simplesmente reproduzi-los, é o que faz a diferença aqui.



O que me levou a olhar com curiosidade para esse Uncharted: O Quarto Labirinto, que acabou de sair em português (li no original, não posso falar da edição da Benvirá), agora que, nas regras de sinergia comercial de franquias, games estão virando livros. A pergunta que faço: como se transporta uma experiência que parece possível somente pela estrutura do jogo, para um texto em prosa?
Espero que esse aqui ao menos não seja a resposta. Não que não tenha méritos, livros comerciais tem regras e elas geralmente funcionam quando são bem aplicadas. O romance de intriga internacional, o "livro-de-ação", que se origina em fórmulas e estrutura de quase um século com John Bucham, passa por Ian Fleming e chega nos autores best-sellers atuais, no fundo nada mais é que a modernização da aventura de capa-e-espada. O problema aqui é que se trata de uma história original dentro de uma franquia maior, e como é comum nesses casos, o autor pode entrar no quarto, pode brincar com os brinquedos mas não pode tirar nada do lugar. Se o sucesso da maioria das séries baseadas em personagens vem, justamente, do desenvolvimento do personagem episódio-a-episódio (e com os jogos de Uncharted não é diferente), um livro onde não há nada disso fica fadado à nulidade. Não é que eu esteja exigindo demais de algo que, afinal é uma obra licenciada de uma franquia onde livros nem são o ponto de origem. E sejamos justos: o autor, do qual nunca ouvi falar, até que costura bem uma trama ao estilo Indiana Jones/James Bond genérica, com o profissionalismo típico de um Michael Crichton (e eu não duvido que, tivesse eu quinze anos e menos critérios, teria adorado esse livro), mas me decepciona que se tenha perdido a oportunidade de entregar à um público fiel (e no caso da série Uncharted, visto a camiseta de fã ardoroso) um produto mais pertinente. Não há nada que justifique esse livro exceto a marca, e isso só ressalta os clichês da série em seus aspectos mais redundantes.

Voltando aos jogos: outro grande mérito deles, obviamente ausente aqui, é a pretensão. A série lança mão o tempo todo de um tom de "obra maior", seja na trilha sonora que parece prestar homenagem aos momentos mais deliciosamente exagerados de Jerry Goldsmith, seja no alto valor de produção associado à direção de arte e cenários, sejam as referências à T. E. Lawrence ou T.S.Elliot (em certo momento, o jogador/Drake precisa atravessar um deserto enquanto trechos de Terra Devastada são recitados como solução de saída). De certa forma, os games pareceram entender algo sobre o conceito grandiloquente de blockbuster que, em algum momento nos anos oitenta, quando Jerry Bruckheimer estuprou o cinema, Hollywood esqueceu. Ou talvez nunca tenha entendido direito.

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