quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Grandes Trans do Iluminismo #1

Uma das partes mais bacanas da pesquisa é encontrar as pequenas figuras históricas que, de tão extraordinárias, parecem mais personagens de ficção do que figuras reais. Um dos temas centrais de Homens Elegantes foi o universo LGBT do século XVIII, o que me levou a descobrir algumas dessas pessoas extraordinárias, que inspiraram uma essa trinca de posts nesse blog.

Chevalier d'Éon (1728-1810), espiã & travesti

Caricatura do Chevalier d'Eon, publicada em 1777.
O que fez: enganou uma imperatriz, chantageou um rei e fez o primeiro wikileaks da História.

Em 1756, na Rússia, numa tentativa de conter a influência francesa, os ingleses bloquearam a fronteira entre a Prússia e a Rússia, deixando que somente mulheres e crianças passassem. Não foi um problema para Lady Léa de Beaumont, enviada para servir como dama de companhia e influenciar a Imperatriz Isabel da Rússia à favor da França.
Mas ninguém desconfiou que, em Paris, Lady Léa atendesse pelo nome de Charles-Geneviève-Louis-Auguste-André-Timothée d'Éon de Beaumont.
Desde cedo de feições andróginas e com talentos para mímica, foi feito membro do primeiro serviço secreto ocidental, o Secret du Roy, criado por Luís XV para executar ações à revelia de seus próprios ministros, e que incluia outras figuras notórias como Casanova e Beaumarchais.

Monsieur
Finda sua missão russa, e de volta à França, Beaumont reassumiu a identidade masculina, e foi como Éon de Beaumont que lutou na Guerra dos Sete Anos, como capitão de dragões. Ferido em batalha, ganhou o título de Chevalier e foi servir como embaixador interino da França em Londres, onde espalharam-se boatos de que, na verdade, ele era uma mulher disfarçada de homem. Apostas chegaram a ser feitas na Bolsa de Valores, mas o próprio Éon se recusou a revelar sua gênero verdadeiro, considerando que submeter-se à um exame seria indigno de sua pessoa.

Mas em Londres, Beaumont foi responsável pelo que talvez tenha sido o primeiro "wikileaks" da história: moderna. Preso na disputa entre duas facções rivais da política francesa, sobreviveu à uma tentativa de envenenamento por parte do novo embaixador. Como vingança, tornou publico documentos da embaixada, uma brecha de diplomacia nunca antes vista, que humilhou publicamente o embaixador seu rival. Chamado pelo rei Luís XV de volta à França, se recusou a ir, e a Inglaterra se recusou a deportá-lo. Tornou-se um pária entre os franceses, e uma celebridade entre os ingleses. Mas quando Luís XV cancelou sua pensão real, Beaumont ameaçou publicar na imprensa tudo o que sabia sobre o Secret du Roy, incluindo planos fracassados do rei da França de invadir a Inglaterra. Acuado, Luís XV cedeu, e Beaumont voltou a receber seus honorários e continuou a servi-lo como espião.

Retrato de Mademoiselle de Beaumont na
National Portrait Gallery, em Londres
Mademoiselle
Com a morte de Luís XV, Beaumont negociou seu retorno à França, anunciando que, na verdade, era uma mulher, criada pelo pai como homem para poder herdar a fortuna da família - e exigiu ser tratado como mulher a partir de então. O governo francês aceitou, exigindo em troca que a partir de então só se vestisse como mulher, garantindo inclusive uma nova mesada real para a aquisição das caras roupas femininas da época.

No final do século, com a Revolução Francesa, sua mesada foi cancelada e Mademoiselle de Beaumont mudou-se de volta a Londres, onde passou a participar de competições de esgrima e escreveu sua autobiografia, La Vie Militaire, politique, et privée de Mademoiselle d'Éon. Tal qual Barry Lyndon, foi ferida gravemente num de seus duelos, e passou os últimos dias de cama, vivendo na pobreza na companhia de uma velha amiga.
Somente após sua morte, uma junta médica examinou seu corpo, e constatou que Beaumont tinha “órgãos masculinos bem formados em todo aspecto”, ao mesmo tempo que “seios notoriamente volumosos”.

Nota: Sua história inspirou peças de teatro, mangas e animes. Em 2012 descobriu-se que um retrato na National Portrait Gallery de Londres, que julgava-se ser apenas o de uma mulher mais, hm, fortinha, era na realidade do Chevalier d’Éon.

2 comentários:

Enzo disse...

que 3 textos maravilhosos, Samir. Obrigado!





Enzo disse...

posso mencionar alguns erros de revisão nos três? aí você pode deletar esse comentário depois de corrigir.

#3
acusa-lo de sodomia = acusá-lo

#2
poi acusada = foi
relevou = revelou

#1
que inspiraram uma essa trinca = (uma)
a revelar sua gênero verdadeiro = seu
o primeiro "wikileaks" da história: moderna = (tem esses dois pontos mesmo?)

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