quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Grandes Trans do Iluminismo #2

Hannah Snell (1723-1792), soldado & marinheiro

Lutou e seduziu em três guerras, deu baixa com honras.

Desde menina, Hanna Snell brincava de soldado. Aos dez anos, organizando suas amiguinhas na “Companhia Jovem de Amazonas Snell”. Aos vinte e um, mudou-se para Londres e se casou, no que foi abandonada pelo marido após perder o primeiro bebê. Snell não hesitou: pegou o uniforme de soldado de seu cunhado, tomou-lhe o nome emprestado (‘James Gray”) e ingressou no exército.

Exército
Com o nome do cunhado, Snell teria participou da Batalha de Culloden, que derrotou os jacobitas escoceses em 1746. Alocada em Carlisle para manobras militares, seu superior a incumbiu com a missão de proxeneta: arranjar uma mulher para o sargento. Ao invés disso, ela própria seduziu a dama em questão, no que foi acusada pelo sargento de "fugir às suas obrigações". Ao descobrirem que era mulher, a acusação piorou: poi acusada de "tentar cometer um crime que a Natureza não colocou em seu poder a capacidade de cometer". Condenada a 500 chibatadas, Snell fugiu do exército, descobriu que o traste do seu marido fora preso e enforcado, e decidiu tentar a sorte na marinha.

Marinha
À bordo do navio de guerra Swallow em 1747, Snell viveu o que se pode considerar uma leva considerável de aventuras. Porém levantava suspeitas: seus colegas marinheiros ficavam consternados que ela não compartilhasse, digamos, dos mesmos apetites que acomete aos rapazes que ficam por tempo demais em navios com outros rapazes. A falta de barba e alguns trejeitos femininos lhe valeram o apelido de Molly Gray (molly era gíria para gays na Inglaterra Georgiana).

Ressentida que a considerassem efeminada, e para provar aos rapazes sua masculinidade, tão cedo o navio aportou em Lisboa, Hanna/James seduziu metade das mulheres do porto. Como aponta o pesquisador inglês Rictor Norton, criou um interessante paradoxo: um travesti feminino que precisou estabelecer sua “masculinidade” através de uma série de casos lésbicos.

Ilustração descrevendo as habilidades
militares de Hannah Snell, em 1750.
Civil
Em 1748, Hanna Snell/James Gray estava na Índia. Participou do cerco à Pondicherry, onde levou um tiro na virilha. Não podendo pedir ajuda, pois isso revelaria seu disfarce, ela própria arrancou a bala e cuidou da ferida. Dois anos mais tarde, de volta à Inglaterra, enfim relevou sua identidade aos colegas marujos, no que causou tremendo espanto. Contou sua própria história no livro The Female Soldier, e passou a se apresentar fazendo exercícios militares e cantando canções do mar. Deu baixa da marinha com honras e, coisa rara na época, conseguiu do governo a mesma pensão vitalícia garantida aos soldados homens.

Casou-se com homens mais duas vezes, comprou uma estalagem chamada The Female Warrior (“A Guerreira”), embora relatos divirjam, há quem diga que se chamava A Viúva Mascarada. Passou os últimos anos em companhia do filho, vindo a morrer com quase setenta anos, ao final do século XVIII.

Nota: a vida de Hannah Snell é contada em diversos livros, a bibliografia desse post sendo o livro Mother Clap’s Molly House: Gay Subcultures in England 1700-1830, de Rictor Norton. De modo incidental, a personagem se faz presente no meu próximo romance, Homens Elegantes.

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