quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Grandes Trans do Iluminismo #3

Princesa Seraphina (1732?), drag queen

Não existe nenhuma imagem retratando Princesa
Seraphina. Contudo, os vestidos femininos
da época, como este da ilustração acima,
ram peças suficientemente caras para justificar um
barraco que terminasse nos tribunais.
Amiga da vizinhança, proxeneta e barraqueira

Para todos seu vizinhos de bairro, John Cooper era simplesmente a Princesa Seraphina, de modo que muitos nem soubessem que tivesse outro nome. Uma figura como ela só se tornou possível por uma conflusão de peculiaridades da sociedade inglesa da primeira metade do século 18, quando se popularizaram tanto as molly houses - os primeiros "bares gays", casas que serviam de pontos de encontro clandestinos, em geral aos domingos, serviam bebidas, cantavam baladas, e era de rigor tratarem-se uns aos outros somente por apelidos femininos. Também foi o auge da popularidade dos bailes de máscaras, ou "mascaradas", onde ninguém era o que parecia ser, e ninguém era de ninguém. Mas o contexto que trouxe a público a existência da Princesa Serafina foi o de um julgamento, a que precisou comparecer.
Não era réu, pelo contrário: era a acusação.

Quero meus direitos
O processo dava conta de que em 5 de julho de 1732, um certo Thomas Gordon foi acusado de roubo por um certo John Cooper. Os dois caminhavam até um “lugar secreto”, onde Gordon ameaçou Cooper com uma faca, exigindo que trocassem de roupas e lhe passasse suas jóias. Se Cooper fizesse queixa, Gordon ameaçou acusa-lo de sodomia. No processo consta que foram levadas “roupas masculinas de fino trato”. Mas Cooper deu queixa. Testemunhas foram chamadas.

No processo, uma lavadeira corroborou que Gordon era mau-caráter e referiu-se à Cooper como Princesa Serafina, lamentando que “um simples caso de sodomia precisasse ir à julgamento”. Gente do comércio do bairro, incluindo os próprios empregadores de Cooper, declararam que conheciam bem “Sua Alteza”, e testemunharam do mau caráter de Gordon. Uma testemunha disse que:

“Já a vi várias vezes em roupas de mulher, ela costuma usar um vestido branco e capa escarlate, com o cabelo frisado sobre a testa, e então ela balança o leque e faz tão finas cortesias, que você não a tomaria por outra coisa que não uma mulher; ela gosta muito de bailes e mascaradas, e sempre escolhe aparecer neles em roupas femininas, para ter a satifação de dançar com excelentes cavalheiros. Sua Alteza vive com o Sr. Tull no Strand e o chama de Mestre, pois serviu-lhes de enfermeira para ele e a esposa quando estavam doentes. Nunca soube que ela tivesse outro nome que não fosse Princesa Serafina”.

Todos as testemunhas referiam-se à John Cooper como “ela”; davam conta de sua profissão de criado para cavalheiros do bairro, o viam com frequência em roupas femininas e tudo indica que era tolerado deste modo. O que transparece da situação toda é não somente o fato de Cooper/Serafina ser aceito pela sua comunidade, ser plenamente conhecido em sua identidade feminina, como o de que se sentia confiante o bastante para ir à justiça e não temer se expor. Isso se dá, provavelmente, ao fato de ter bons contatos na sociedade, pois há indicações de que prestasse serviços como “intermediário” para cavalheiros discretos em busca de boas (e belas) companhias masculinas, no que Serafina ganhava alguns guinéus. Ao final, Gordon foi condenado por roubo e Cooper/Princesa Serafina ganhou a causa (e as roupas).

Historicamente, seus registros terminam aqui. Não se sabe quando ou como ou onde morreu. Há registros anteriores, porém, nas memórias de um assaltante de estradas, James Dalton, escritas pouco antes de sua morte na forca em 1728, em que dá conta da ocasião em que busca abrigo numa molly house (o equivalente do século XVIII a um bar gay) e encontra a própria Princesa Serafina, que então trabalhava como açougueiro.

Nota: uma transcrição completa do julgamento, em inglês, pode ser lida aqui.

6 comentários:

Karla Nazareth-Tissot disse...

anota meu novo blog: http://tempoinvisivelquehabito.blogspot.com.br/

Matheus Assunção disse...

Samir,

Já leu os livros do Robert Darnton? https://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_Darnton

Estou lendo seu delicioso "Homens elegantes" e lembrei dele.

Abraço,

Samir Machado disse...

Oi Matheus!

Sim, eu li do Darton "Os Dentes Falsos de George Washington" (recomento) e o "Edição e Sedição", que está na bibliografia do Homens Elegantes (é mais espécifico e mais difícil de achar, mas recomendo pra quem quiser se aprofundar sobre o mercado livreiro do século XVIII).

Matheus Assunção disse...

Nossa,

Oi, Samir!

Que alegria essa resposta! Eu nem acabei "Homens elegantes" ainda (e não tinha visto que tem bibliografia! hahahaha), mas já pode me contar como um grande fã. Fiquei muito feliz de descobrir que o livro existia e estou adorando lê-lo.

Eu li o "A questão dos livros" e fiquei com muita vontade de ler "Os dentes falsos de George Washington". Essa questão do tráfico de livros no século XVIII é mesmo fascinante. Faz pensar em alguns dos tráficos que temos hoje.

Abraço,

Anônimo disse...

Gostaria de agradecer o excelente livro, Homens Elegantes, de sua autoria. Fiquei fascinado do inicio ao final. Vc conduz a estória com maestria. Obrigado pelas horas tao agradáveis e espero mais! Muito mais!

Samir Machado disse...

Olá! Fico muito feliz de que tenha gostado! E sim, eventualmetne, Érico Borges irá voltar.

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