segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Três anos de Não Editora – Uma história não-oficial

Em dezembro, completam-se três anos que lançamos a Não Editora. É estranho, mas parece que faz mais tempo. Volta e meia preciso responder à pergunta “porquê vocês decidiram montar uma editora?” e preciso garimpar assuntos racionais que justifiquem o projeto como um todo, quando, no fundo, a resposta mais sincera seria “e porquê não?”. Outra pergunta frequente e que preciso encontrar uma resposta concisa é sobre como surgiu a idéia, e só agora percebo que não há exatamente um “histórico” da editora oficializado. Bem, aqui vai a minha versão dela, e de como passei de mero consumidor a produtor de livros.



My name is Guybrush Threepwood, and I want to be a pirate
Ao menos pra mim, tudo começa, na prática, em 2006. Na oficina de criação literária do prof. Luiz Antônio de Assis Brasil, onde fui colega da Lú Thomé e do Gustavo Faraon, ambos membros do conselho editorial da Não. Tradicionalmente, ao final de cada curso, que dura dois semestres, a turma se junta e dá um jeito de bancar uma edição dos tradicionais “contos de oficina” (o nosso era o número 35). Junto com a Lú, me envolvi bastante no processo de produção do livro, diagramando e fazendo a capa, enquanto ela cuidava da divulgação. Foi uma experiência interessante, porque me fez perceber que, afinal de contas, conhecendo as pessoas certas, não era tão complicado assim produzir um livro (ingenuidade minha, era complicado sim, eu que não precisei me envolver com negociações de gráfica, revisão e – o maior dos problemas – distribuição, até porquê o livro não teve nenhuma).

Ficção de Polpa e o teste do sofá que não houve

No final daquele ano, me ocorreram três idéias: 1) de que uma coletânea de vários autores era uma boa forma de garantir um público mínimo (afinal, todo mundo tem família ou amigos que, pelo menos, compram o teu primeiro livro por educação ou pra dar apoio), 2) de que eu conhecia um punhado de gente que escrevia bem e eles provavelmente deveriam conhecer outros mais, 3) de que, sendo todo mundo absolutamente desconhecido, a única forma de chamarmos atenção pra uma coletânea nossa seria ter um tema que fosse atraente. Na época, eu estava lendo Batman: The Complete History, livro bem bacana com design ainda mais bacana do Chip Kidd, num capítulo que falava de como quase toda a indústria de entretenimento americana atual nascera, de certa forma, com as pulp magazines da década de trinta. E daí veio a idéia do Ficção de Polpa. Mandei emails para os amigos. Na época, o Guilherme Smee, meu amigo da faculdade, tinha um colega de trabalho interessado em participar, o Rodrigo Rosp, que convenientemente, era revisor. Por sua vez, o Rosp tinha vários colegas de seminário de criação literária que poderiam se interessar. Não tardou a chegar até mim um email, ultraenfático, em letras garrafais, que dizia: “EU DOU PRA QUEM FOR, MAS EU TENHO QUE PARTICIPAR DISSO!!”. E foi assim que conheci o Antônio Xerxenesky. Para a sorte dele, não foi preciso um teste do sofá pra que ele participasse da coletânea. Eu sabia também que o Alessandro Garcia estava montando uma editora, a Fósforo, que ainda não tinha nenhum lançamento agendado, então combinamos de lançar o livro pela editora dele.

“Vamos montar uma editora?”
Em função disso, mais ou menos nessa época comecei a participar do seminário de criação literária da profa. Léa Masina, onde conheci alguns dos autores que posteriormente seriam publicados pela Não – o Rafael Bán Jacobsen, que trabalhava meticulosamente nos capítulos do que seria Uma Leve Simetria, e próprio Xerxenesky, que na época tinha começado a escrever um certo faroeste com zumbis. Também eram meus colegas de turma nesse seminário o Rodrigo Rosp e a Luciana Thomé. Lançamos o primeiro Ficção de Polpa, o evento foi um sucesso (publico estimado de 400 pessoas, naquela que, dois anos depois, descobri ter sido a noite mais fria da década em Porto Alegre), saimos na capa do Segundo Caderno, um monte de resenhas bacanas na internet depois, elogiando o projeto. Tudo muito legal. A essas alturas, eu e o Rosp estávamos trabalhando na mesma agência, onde eu era diretor de arte no núcleo editorial, e ele revisor, quando me deu uma idéia, subi até a sala dele, coloquei a cabeça pela porta e perguntei: “vamos montar uma editora?”.

Livros do Não

A referência era, obviamente, a Livros do Mal criada em 2001 pelos dois Daniéis, o Galera e o Pellizzari, que só mais tarde fui descobrir, eram amigos pessoais do Antônio. A idéia era simples: eu me considerava razoavelmente hábil em diagramar livros e tinha uma boa experiência com isso nos tempos em que trabalhei na PUCRS fazendo capas pra editora da universidade. O Rosp era revisor. A Lú Thomé, além de conhecer toda Porto Alegre, cuidava da divulgação. O Guilherme me ajudava com a diagramação. O Rafael Spinelli, irmão do Rosp, cuidava da parte financeira-administrativa. E o Antônio conhecia praticamente todo mundo, era nosso relações públicas não-oficial, cuidando do boca-a-boca entre as poucas pessoas em Porto Alegre que de fato lêem os livros que compram.

Ornitorrinco Editorial
Primeiro desafio foi encontrar um nome. Pouca gente sabe, mas chegamos a cogitar Ornitorrinco Editorial. Não lembro o motivo pelo qual descartamos a idéia (bom-senso, talvez). Depois veio Editora Pathós. Não tenho certeza, mas acho que a idéia veio de um cartaz de filme de monstro antigo que dizia “Laughs! Thrills! Pathos!”. Também descartamos a idéia. Foi o Guilherme Smee, o mais silencioso dos não-editores, a sugestão de que chamássemos de Não-Editora, em referência à não-garota do Grant Morrison em New X-Men (50% dos não-editores podem ser considerados nerds e/ou geeks). Como não teriamos sede física, e naquele momento, nem empresa constituída, parecia adequado. E foi o Guilherme também, grande admirados de tudo que é surrealista, quem trouxe a referência ao Traição das Imagens do Magritte, que serviu de base para o nosso logo. É de autoria do Guilherme, mais uma vez, o nosso pequeno manifesto que temos no site. Com isso começamos a organizar nossos lançamentos, que acabou ocorrendo em dezembro de 2007.

Temos atualmente um catálogo com 16 livros e nenhum arrependimento. Nem todos nossos livros podem ser considerados sucessos do ponto de vista comercial, mas não tem nenhum que eu não defenda e que não me orgulhe de ter participado, direta ou indiretamente, da produção. Quando a Carol Bensimon foi publicado pela Companhia das Letras, e quando o Antônio teve o Areia nos Dentes republicado pela Rocco, me perguntaram se tinhamos algum ressentimento em ter “perdido” esses autores. Em primeiro lugar, não perdemos ninguém, tanto que eles continuam conosco (afinal, o Antônio é um dos sócios-editores, e o Pó de Parede da Carol tem sua segunda tiragem sendo lançada esse mês, pela Não). Em segundo lugar, foi exatamente para isso que criamos a editora: para servir de trampolim para novos autores. Claro que alguém vai apontar isso como um paradoxo, do ponto de vista de uma editora enquanto negócio. Mas, afinal, somos uma Não-Editora.

4 comentários:

Cristian Barreto disse...

Sou de Brasília e cheguei a Não pelo Pó de Parede. Achei a editora, como o projeto em si, uma puta ideia. Agora, conhecendo a história por trás, as referências nerdístícas, apresento-me como (mais um) um Não Admirador. Parabéns e sucesso.

Mauro Siqueira disse...

Conheci a Não pela dúvida. A dúvida entre escolher entre comprar 'Pó de Parede' e 'Desencantado carrossel', fiquei com o primeiro por identificação ao gênero - curioso que conheci o Diego Grando recentemente.

Automaticamente, como fã da arte, chamou a minha atenção e a intenção de além de oferecer um bom conteúdo um bom projeto gráfico. Como não ficar de queixo caído com capas como 'Desacordo Ortográfico' e 'Raiva nos raios de sol'?

Parabéns pela Não e a ti!

Anônimo disse...

Спасибо понравилось !

J.D. Crespo disse...

Ótimo nome e design e tudo mais. Admiro a não editora! E a história por trás dela é excelente. Eu penso em montar uma editora, mas falta uma equipe. Ainda. Vou lançar meu livro (aqui no Rio) e não encontro uma editora que tenha charme. Todas são muito industriais (inclusive a qual eu assinarei contrato em breve, Nonoar). Trabalho no ramo editorial como freelancer e percebo isso.

Conheci a Não Editora através da Carol Bensimon (que conheci não sei como). Comprei Sinuca Embaixo D'água com certa facilidade, mas deu um certo trabalho comprar Pó de Parede, único livro que eu tenho da Não Editora (Livraria Cultura).

Enfim, desejo sucesso e quando der uma adiantada na minha lista de livros pra ler encomendo mais alguns (citados no texto, já li livros da Carol Bensimon - e do Daniel Galera-, considero os dois sensacionais.)

É isso.
J.D. Crespo

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