terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Em Avatar, o meio é a mensagem

Texto escrito para o jornal CineSemana

Do muito do que se tem falado sobre Avatar – o orçamento estratosférico e a bilheteria idem, o roteiro funcional e a reação indignada da direita americana com o tom ecológico-pacifista do filme, e tudo o que o filme promete –, um aspecto pouco observado é que, em sua promessa de reinventar a experiência de ir ao cinema, o filme tem levado às salas um público que não havia ainda experimentado o cinema 3D. Público este que, talvez, estivesse reticente com a oferta até então dominante de filmes de animações infantis e produções B. Mais do que isso, tem trazido o público em geral de volta aos cinemas, em época que muitos abdicam da experiência coletiva da sala escura e da imersão da tela grande. Com tudo o que Avatar promete, baixar o filme para vê-lo num laptop perde o sentido. É a forma que Hollywood encontra para combater a pirataria: fazer filmes que justifiquem o preço do ingresso e lembrem o público do que significa ir ao cinema.
E tanto melhor que Avatar é o primeiro filme em que a experiência do 3D está intrinsecamente ligada a sua história. Curiosamente, muito pouco se têm da impressão de ter “coisas vindo na sua cara”, pelo contrario, é o espectador que é deixado sempre a ponto de entrar no filme, quase como se pudesse afastar arbustos ou névoas e explorar a selva de Pandora. Essa cautela em quebrar a quarta parede faz com que a experiência de assistir Avatar em 3D torne-se análoga à sua história: o deslumbramento pela sensação táctil provocado pelo filme em grande parte do público, (que em grande parte descobre o 3D com Avatar), corre em paralelo com o deslumbramento do protagonista Jake Sully em explorar o mundo de Pandora e recuperar os movimentos de sua perna – a cena em que Jake, já no corpo de seu avatar, corre por uma plantação e sente a areia em seus pés é símbolo disso.
Todo o filme está estruturado sobre o conceito de conexão e sensação: o soldado paraplégico que volta a andar em um corpo alienígena, a conexão direta dos Na’vi com animais e plantas, os soldados e sua conexão com armaduras robóticas, mas também, no momento que é preciso que se coloque óculos especiais para assistir o filme, entre o espectador e a tela. Não deixa de ser curioso que a forma que James Cameron tenha encontrado para contar sua história – que versa, basicamente, nossa falta de conexão com a natureza e um certo horror à desumanização provocada pela tecnologia – seja, justamente, usando a mais avançada tecnologia do momento.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Leituras do segundo semestre

Sempre tive certa inveja de quem nasceu em família de leitores assíduos, com pequenas bibliotecas pessoais em casa. Por algum motivo que nunca entendi a lógica, tanto no colégio Anne Frank quanto no Irmão Pedro, as bibliotecas eram fechadas aos alunos durante o horário do recreio. Assim, só fui me tornar leitor voraz quando entrei na faculdade e descobri a biblioteca da PUCRS, isso lá no começo dessa década. De lá pra cá, sempre fico com a sensação de que corro atrás do prejuízo no quesito leituras, e estabeleci como meta pessoal pra 2009 tentar ler 1 por semana. Seria uma forma de dar conta dos que estavam na pilha de "livros a ler" fazia mais de cinco anos, e de me atualizar. Leituras de tijolões, que me consumiram um mês ou mais de atenção, foram compensadas com livros de contos curtos (e livrinhos como Rousseau em 90 minutos, que foi lido durante uma palestra chata. Como foi experiência rápida e indolor, me animei a tentar ler o Derrida em 90 minutos, mas esse já não foi tão indolor). Então, pequena glória pessoal e instransferível: somando minha lista de leituras do primeiro semestre com a atual, vejo que consegui cumprir a meta (e superar em 1 livro a mais). Vivas para mim: como prêmio, minha pupila dilata quase todo dia entre 20h e 21h. No próximo ano, vou trocar um pouco do tempo dedicado a ler por exercícios físicos e, seguindo o exemplo do Peter Jackson, tentar perder uns quilos.

E isso foi o que carreguei na mochila durante esse semestre:

Rousseau em 90 minutos, Paul Strathern
Ovelhas que voam se perdem no céu, Daniel Pellizzari
Moby Dick, Herman Melville
Black Hole - Introdução à Biologia, Charles Burns
Sinuca embaixo d'água, Carol Bensimon
Azincourt, Bernard Cornwell
Black Hole - O Fim, Charles Burns
Umbigo sem fundo, Dash Shaw
Laranja Mecânica, Anthony Burgess
Até o dia em que o cão morreu, Daniel Galera
Ainda orangotangos, Paulo Scott
Caim, José Saramago
Z, A Cidade Perdida, David Grann
A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao, Junot Díaz
Flores, Mario Bellatin
O Uraguay, Basílio da Gama
Desacordo Ortográfico, Reginaldo Pujol Filho
Todos os belos cavalos, Cormac McCarthy
Bartleby e companhia, Enrique Vila-Matas
A Galinha Degolada e outras histórias, Horacio Quiroga
A Coleçao Particular, Georges Perec
Fora do Lugar, Rodrigo Rosp
A Solução Final, Michael Chabon
Chip Kidd: Book One - Work: 1986-2002, Chip Kidd
O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, Miguel de Cervantes

Na lista, eu não diferencio graphic novels de livros - é só uma lista de leituras, não um concurso, afinal de contas. E na real nem tenho bem certeza do motivo de colocar essa lista aqui, exceto para fornecer assunto no caso de algum amigo querer puxar papo e trocar opiniões sobre leituras. No total, li cerca de cinquenta livros esse ano, e se alguém quiser sugestão pra escolher o que ler (no caso da minha opinião fazer alguma diferença pra alguém, o que duvido), esses aqui embaixo me marcaram profundamente ao longo do ano, e são os que mais recomendaria:

Mason & Dixon, Thomas Pynchon
Primeiro amor, último sacramento, Ian McEwan
O Jardim de Cimento, Ian McEwan
O livro das cousas que acontecem, Daniel Pellizzari
Moby Dick, Herman Melville
Laranja Mecânica, Anthony Burgess
Z, A Cidade Perdida, David Grann
A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao, Junot Díaz
Todos os belos cavalos, Cormac McCarthy

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Açorianos

Então, semana passada, foi a entrega do Prêmio Açorianos de Literatura 2009, premiação promovido pela Prefeitura de Porto Alegre, onde saí premiado com melhor Capa de Livro, pela capa do Raiva nos Raios de Sol. Dessa vez foi bem...diferente... na falta de outra palavra, já que cada premiado, conforme ganhava, era levado a se sentar em cadeiras no fundo do palco e, sendo o prêmio de melhor capa o primeiro da noite, vi a premiação toda por trás. Foi uma noite agradável que terminou num ótimo jantar no BierGarten em companhia dos colegas da Não, do pessoal da editora Arquipélago (que saiu merecidamente premiado com destaque em mídia impressa para a revista Norte), do Carlos André Moreira (outro merecido destaque, em mídia digital, pelo blog Mundo Livro) e do Fredy, que foi lá me dar um abraço e me ajudou a dar conta de um bife de búfalo. Saldo final da noite: tornei-me proprietário de um belo homúnculo verde de reluzente pinto dourado.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Sete crenças do câozinho borzói

Em paralelo ao meu projeto de terminar o ano lendo Dom Quixote, sigo lendo também Chip Kidd: Book One, livro-portfólio daquele que é considerado o rockstar dos capistas. O livro é, no momento, minha Bíblia de soluções bacanas de design, mas à parte isso, tendo Kidd trabalhado a carreira toda na editora Alfred A. Knopf (hoje parte do grupo Random House), acabou desenvolvendo uma relação de confiança mútua no que descreve como uma editora que não tem medo de assumir riscos, tanto de publicações (os livros editados por Gordon Lish, por exemplo) quanto de design (e algumas das soluções que Kidd trouxe para as capas com que trabalhou foram bem arriscadas, em termos de produção gráfica). Mais interessante: a editora possui um credo, escrito por seu fundador, que, lendo agora, reflete muito dos valores que, acredito, formam o conceito que tenho da Não Editora.

O Credo Borzoi

Eu acredito que uma marca editorial significa alguma coisa, e que se os leitores derem mais atenção à editora dos livros que adquirem, suas chances de serem desapontados serão infinitamente menores.

Eu acredito que bons livros devem ser bem feitos, e tentarei dar a cada livro que publicar uma forma que seja distinta e atraente.

Eu acredito que nunca publiquei um livro que não valesse a pena.

Eu acredito que um editor tem a obrigação moral e comercial com seus autores de tentar por toda forma promover as vendas de seus livros, manter tiragens impressas e aumentar o prestígio de seus autores.

Eu acredito que uma resenha por um crítico incompetente é um pecado contra o autor, o livro, a editora e a publicação em que a resenha aparece.

Eu acredito que a necessidade básica do negócio do livro não é o mercado do peixe, mas mais livreiros que amam e compreendem livros e que sejam capazes de comunicar seu entusiasmo ao seu público.

Eu acredito que revistas, livros televisão e rádio* nunca substituirão um bom livro.

* acrescente-se a internet na lista.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Favoritos da década

Então, atendendo à um único pedido, e com um amigo lembrando que provavelmente ninguém se importa muito com listas de favoritos da década além do autor da lista, aqui fiz a minha, a muito custo. Vou tentar frear o impulso de pedir desculpas por ela. Há um gosto nerd muito meu por filmes de ficção científica ou fantasia, e uma gritante tendência anglófona – acho que poderia contar nos dedos os filmes asiáticos que assisti (Oldboy foi um filme bacana mas que nunca me marcou muito. E lembro do ódio colossal que tive de ver apenas mas poucas cenas de Visitor Q, que provavelmente me encheu de preconceitos futuros pra qualquer filme que eu venha a assistir de Takashi Miike). Fora isso, a década acaba, e ainda não assisti Elefante, Paranoid Park ou Donnie Darko, que todo mundo aponta como filmes geniais.

1. O Senhor dos Anéis (Peter Jackson, 2001/2002/2003)
2. Filhos da Esperança (Alfonso Cuarón, 2006)
3. Marcas da Violência (David Cronenberg, 2005)
4. Guerra dos Mundos (Steven Spielberg, 2005)
5. Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino, 2009)
6. Os Infiltrados (Martin Scorsese, 2006)
7. Sangue Negro (Paul Thomas Anderson, 2007)
8. Dogville (Lars Von Trier, 2003)
9. Garotos Incríveis (Curtis Hanson, 2000)
10. Gladiador (Ridley Scott, 2000)
11. Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008)
12. O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (Andrew Dominik, 2007)
13. O Nevoeiro (Frank Darabont, 2007)
14. King Kong (Peter Jackson, 2005)
15. Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002)
16. Desejo e Reparação (James Wright, 2007)
17. Psicopata Americano (Mary Harron, 2000)
18. Cassino Royale (Martin Campbell, 2006)
19. Ratatouille (Brad Bird, 2007)
20. A Queda! (Oliver Hirschbiegel, 2004)

E outros vinte que não consigo (nem quero) colocar numa ordem de preferência, mas que levo comigo dessa década.

• E sua mãe também (Alfonso Cuarón, 2001)
• Pacto de Justiça (Kevin Costner, 2003)
• Procurando Nemo (Andrew Stanton, 2003)
• O Clã das Adagas Voadoras (Zhang Yimou, 2004)
• Colateral (Michael Mann, 2004)
• A Má Educação (Pedro Almodovar, 2004)
• Menina de Ouro (Clint Eastwood, 2004)
• A Supremacia e O Ultimato Bourne (Paul Greengrass, 2004/2007)
• Caché (Michael Haneke, 2005)
• A Fantástica Fábrica de Chocolate (Tim Burton, 2005)
• Orgulho e Preconceito (James Wright, 2005)
• Apocalypto (Mel Gibson, 2006)
• Cartas de Iwo Jima (Clint Eastwood, 2006)
• O Labirinto do Fauno (Guillhermo del Toro, 2006)
• A Espiã (Paul Verhoeven, 2006)
• Volver (Pedro Almodóvar, 2006)
• A Rainha (Stephen Frears, 2006)
• Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (Alfonso Cuarón, 2007
• Onde os fracos não tem vez (Joel e Ethan Coen, 2007)
• O Lutador (Dareen Aronofsky, 2008)

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Dois trechos

que me pegaram de jeito. Num livro que é repleto de pequenos momentos sensacionais.

"Dentro do arco das costelas entre suas pernas o negro coração pulsava segundo a vontade de quem e o sangue latejava e as entranhas se mexiam em sua maciças circunvoluções azuis segundo a vontade de quem e os fortes ossos das coxas e joelhos e canelas e os tendões parecendo amarras de linho que puxavam e dobravam e puxavam e dobravam suas articulações segundo a vontade de quem envolta e abafada na carne da cabeça virando de um lado para outro e no grande teclado escravizante dos dentes e nos globos quentes dos olhos onde o mundo ardia".

"Logo passaram por uma touceira de cholla contra o qual pequenos pássaros tinham sido lançados e empalados pela tempestade. Passarinhos cinzentos e anônimos cravados em atitude de vôo natimorto ou pendendo frouxamente cobertos de penas. Alguns ainda estavam vivos e retorceram-se sobre as próprias espinhas quando os cavalos passaram e ergueram as cabeças e gritaram mas os cavaleiros seguiram em frente".

Todos os belos cavalos, Cormac McCarthy

sábado, 14 de novembro de 2009

O professor indicado

Notícia que animou minha manhã de sábado: saiu a lista de indicados ao Prêmio Açorianos de Literatura 2009, promovido pela Prefeitura de Porto Alegre. E meu livro de estréia, O Professor de Botânica, foi indicado na categoria Melhor Narrativa Longa, onde concorre com Uma leve simetria, de Rafael Bán Jacobsen (também publicado pela Não Editora) e A Parede no Escuro, de Altair Martins (que conheci pessoalmente ontem, no lançamento do Desacordo Ortográfico).

Como se isso não fosse o bastante, também concorro em outras duas categorias: melhor projeto gráfico, por Ficção de Polpa, vol. 3, e melhor capa, com Raiva nos Raios de Sol, de Fernando Mantelli. O que fez de mim campeão de indicações dessa edição do prêmio, e a Não Editora, a editora com maior número de indicações.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Desacordo vem aí

É nessa sexta-feira 13 (clique para ampliar)!. Mas já está a venda no site da Livraria Cultura.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Manual do escoteiro-mirim hardcore

De Herzog a Spielberg, a noção de mistério e aventura contida na idéia de se aventurar no meio do mato é uma coisa que sempre me fascina (e de certa forma, meu livro O professor de botânica é um pouco sobre essa imagem idealizada e rousseauniana que tenho, enquanto homem urbano, da vida natural – alguém já disse que há um pouco de Rousseau em cada jardim doméstico). Já tinha ouvido falar da história do coronel Percy Fawcett e sua obsessão em encontrar o El Dorado na Amazônia (minha mãe é espectadora assídua do History Channel), então li Z, a Cidade Perdida*, de David Grann, como se tivesse sido escrita especialmente pra mim, sensação que só tive esse ano quando li o Mason & Dixon do Pynchon.

No contexto em que o coronel Percy Fawcett viveu a maior parte da sua vida, acreditar na existência de cidades perdidas era uma realidade científica. Fawcett, entediado com a rotina militar, fez um curso de explorador na Real Sociedade Geográfica (sim, vivia numa época em que havia curso para se tornar explorador) e saiu de lá com um contrato para delimitar a fronteira entre Brasil e Bolívia, no meio da Amazônia, uma experiência tão marcante quanto surreal (e aqui volto a pensar em Mason & Dixon) onde Fawcett foi apresentado à piranhas, formigas saúvas, núvens de mosquitos e o temível candiru, peixe minúsculo e espinhento que entra pela uretra e pode provocar a perda de partes sensívels da hombridade de um explorador – na melhor das hipóteses.

Ainda que, a certo momento, a descrição de mais de cinquenta vermes nos cotovelos de um membro de uma das expedições seja o suficiente pra que nunca se deseje uma aventura amazônica semelhante, Fawcett, que era tremendamente antissocial e não se sentia muito à vontade com os próprios filhos, preferia isso a vida urbana.
Com o tempo, Fawcett torna-se mais e mais obcecado com a idéia de encontrar a prova da existência de uma sofiticada civilização perdida na Amazônia, e a descoberta de Macchu Piccho por Hiram Bingham só alimenta sua obsessão.

Um dos aspectos mais interessantes de sua história é que, assim como o personagem que inspirou (estamos falando do próprio Indiana Jones, no caso), não faltaram elementos pulp à sua vida: desde seus rivais, como o milionário americano Alexander Rice, que dispunha de tecnologia altamente avançada para os padrões da época (como rádios e hidroplanos) e que desejava encontrar Z antes de Fawcett (depois, quando Fawcett despareceu, o próprio Rice tentou encontrar o rival), ao potencial charlatão com o nome muito pulp de Savage Landor, que escrevia sobre peripécias altamente improváveis ao redor do mundo, passando pelo membro traíra da expedição (Fawcett acreditava que todo grupo possui um Judas).

O texto de Grann é cheio dos vícios de linguagem de um escritor best-seller, com os ganchos meio bregas no final de cada capítulo (tradição, diga-se de passagem, herdada dos seriados de aventura que Fawcett provavelmente inspirou), e que dão um ar meio Michael Crichton pra narrativa toda – o que não é ruim, ressalte-se. Mas dando um desconto pro cara no aspecto técnica literária, a pesquisa que Grann faz é deliciosa. Desde resgatar as conexões de Fawcett com Conan Doyle e seu papel como inspirador de O Mundo Perdido (o original, não o de Crichton), até recapitular a história de outros obcecados pelo El Dorado, como Lope de Aguirre, a Cólera dos Deuses em pessoa. A certa altura, quando Fawcett já desapareceu na Amazônia com seu filho mais velho e o amigo deste, em sua última viagem, Grann recapitula rapidamente o destino de vários dos que tentaram resgatá-lo: uma sucessão de aventureiros sem-noção alguma do perigo, um terminando pior que o outro. Há o ator de filmes B que acaba sendo sequestrado por índios, há o explorador que, presenteado com pombos-correio, os mandou aos poucos descrevendo sua descida ao inferno até a morte, há os que enlouquecem e se matam no meio da selva, e os que são mortos pelos índios. É o tipo de livro tão divertido que eu fico desejando que não acabe nunca (o que, no caso do supracitado Mason & Dixon, é mais ou menos o que acontece).

Único porém, em relação à pesquisa do livro: após tantas tragédias pessoais e familiares motivadas pelo desejo de fama e glória envolvendo Fawcett e a idéia de civilização perdida na Amazônia, a possibilidade levantada ao final do livro, vinda de um pesquisador (Michael Heckenberger, google se quiser), que supostamente encontra a cidade perdida, me motivou certa desconfiança – vou esperar pelo artigo na National Geographic antes de levar a hipótese mais a sério. Como resultado prático, posso dizer que depois de ter lido Z, fiquei com uma tremenda vontade (aliás, prometi pra mim mesmo que um dia ainda vou fazer isso) de escrever um livro estilo “aventura para garotos”.

*Eu já havia comentado da capa desse livro lá no Sobrecapas, com entrevista com o capista Christiano Menezes.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Laranja Mecânica

Leitura recente das que mais me empolgou, foi o Laranja Mecânica, Anthony Burgess, em tradução do Fábio Fernandes publicada pela Aleph em 2004 (com uma capa muito bacana e impactante, diga-se de passagem). A edição vêm com o tal 21° primeiro capítulo que, concordo, deixa o leitor com cara de cú, se pensar que a história teria terminado muito bem no 20° capítulo (que é onde o filme acaba). Kubrick só leu até o 20° capítulo porque leu a edição americana, cujo editor achou o último capítulo tão empaca-foda que preferiu cortá-lo. Entendo, entendo... mas por mais frustrante e potencialmente inverossímil que seja, aquele final do livro também faz sentido. No mais, ainda que a violência descrita no livro não choque mais, dado o contexto atual das coisas, saber que Alex tem 15 anos no começo do livro, e não um marmanjo já passado dos vinte como o Malcolm McDowell era quando fez o filme, acrescenta o devido choque.
Outra coisa bacana dessa edição foi a introdução do Fábio Fernandes, explicando que a inspiração original de Burgess para a violência juvenil e a gíria nadsat eram as rivalidades entre mods e rockers na Inglaterra dos anos sessenta, mas que o autor preferiu pensar melhor em como abordar isso no livro, por medo de que deixasse a obra datada. Depois de uma visita à Rússia, e de descobrir que lá também se tinha problemas com gangues juvenis, veio-lhe a idéia de usar palavras russas e gírias ciganas para compor o nadsat. Essa edição da Aleph, aliás, conta com um dicionário nadsat no final. Tentei ler o máximo possível sem consultá-lo, nem sempre resisti, mas a sonoridade da gíria é uma coisa deliciosa de se ler, ainda mais sendo o livro narrado em primeira pessoa por Alex. Com o tempo, acostuma-se, chego a sair pensando em nadsat. Aliás, serviu também pra saber de onde veio o nome da banda DeVotchka (que quer dizer "garota", simplesmente). Abaixo, um trecho que curti:
Mas, irmãos, esse negócio de ficar roendo as unhas dos dedos do pé sobre qual é a causa da maldade é o que me torna um maltchik risonho. Eles não procuram saber qual a causa da bondade, então porquê ir à outra loja? Se os plebeus são bons é porque eles gostam, e eu jamais iria interferir com seus prazeres, e o mesmo vale para a outra loja. E eu frequento a outra loja. E mais: maldade vem de dentro, do eu, de mim ou de você, totalmente odinokis, e esse eu é criado pelo velho Bog ou Deus, e é seu grande orgulho e radóstia. Mas o não-eu não pode ter o mal, quer dizer, eles lá do governo e os juízes e as escolas não conseguem permitir o eu. E não é a nossa história moderna, meus irmãos, a história de bravos eus malenks combatendo essas grandes máquinas? Estou falando sério sobre isso com vocês, irmãos. Mas eu faço o que faço porque gosto de fazer.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Testosterona literária

Na Noize #28, além das resenhas de cinema do mês (Anticristo, Se beber não case e Up), saiu também uma microresenha que escrevi, para o último livro do Bernard Cornwell. Segue o texto, numa versão um pouco maior do que a que foi publicada (o limite de 1000 caracteres é sempre mortal).

Azincourt, de Bernard Cornwell (2009)
Um dos destaques da Bienal do Rio em setembro, o escritor inglês Bernard Cornwell veio ao Brasil lançar seu novo livro, Azincourt, que funciona como uma espécie de introdução à sua obra, marcada por diversas séries (só o das Aventuras de Sharpe conta com 20 romances, 7 deles lançados no país, além das trilogias Crônicas de Artur, favorita dos fãs, e A Busca do Graal). Estão ali todos os elementos típicos de suas aventuras, a começar pelo protagonista, Nicholas Hook, que após bater num padre (que, nos livros de Cornwell, são sempre tarados sádicos), torna-se fora da lei até ingressar no exército de Henrique V, em sua campanha pela coroa da França, culminando na famosa batalha que dá título ao livro. Está presente o pacote padrão de Cornwell: desde as detalhadas descrições históricas de roupas, cenários e hábitos, até – elemento presente em todos os seus livros – o violento resultado do fanatismo religioso, coisa que o autor, cujos pais adotivos eram fundamentalistas cristãos, conhece bem. Em níveis de testosterona, os livros de Cornwell são o equivalente literário a jogar God of War ou assistir 300 de Esparta (e me ocorre que, se uma mulher lesse, jogasse e assistise as referidas obras num combo, desenvolveria um par de testículos por geração espontânea). Ainda que se repita muito em estilo e temas, Cornwell possui um excelente senso de ritmo e domínio da narrativa.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O outro blog

Tenho outro blog, agora. Enquanto esse aqui continua sendo meu blog pessoal, onde escrevo bobagens sobre coisas aleatórias, filmes e livros vistos, o sobrecapas será focado em design de livros. Pra começar, uma entrevista com o designer Marcelo Martinez, do estúdio Laboratório Secreto, sobre as capas dos livros de Bernard Cornwell. O link é sobrecapas.blogspot.com

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Anticristo

Na cena de abertura, filmada em belíssimo preto-e-branco e ao som da ária Lascia ch'io pianga de Händel, o casal anônimo de protagonistas faz sexo no banheiro enquanto o filho pequeno despenca lentamente da janela aberta. Ela (Charlotte Gainsbourg, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes pelo papel), entra em depressão profunda pelo luto. Ele (Willem Dafoe), psicólogo, acredita que pode curar a esposa levando-a para a casa de campo dos dois, Éden. Lá, pretende criar jogos psicológicos para tratar a esposa, que acabam levando os dois a um intenso confronto sexual e violentamente agressivo – para os personagens e para o espectador, já que von Trier não desvia a câmera nem em seus momentos mais fortes (que incluem tortura e mutilação genital). Assim como em Dogville, seu filme mais popular, o mal, para o diretor, está na base da natureza humana.
Quando um crítico em Cannes exigiu que o diretor explicasse a sua obra, Von Trier respondeu que, se quisessem, poderiam interpretá-lo como um “ato divino”. À parte sua arrogância calculada, seu trabalho em Anticristo se impõe, pela seriedade com que processa os elementos psicológicos de terror que afetam seus personagens, acima da mera classificação como “filme de terror”, ou de qualquer classificação. É um filme difícil de se processar, mas muito além da discussão de ser “bom” ou “ruim” – ou, para manter a referência à Nietszche de seu título, é um filme que se posiciona além do bem e do mal.

*Essa resenha sairá na edição de outubro da revista Noize, junto com outra de Se Beber, Não Case e Up! Altas Aventuras. Aliás, alguém me explica porquê diabos esse filme demorou quase dois meses pra estrear em Porto Alegre?

Atualizando...

Na semana passada, o jornal CineSemana, editado pelo amigo e ex-colega de oficina Gustavo Faraon, me considerando "uma personalidade do universo cultural" (até parece...eheh), me perguntou qual meu filme favorito, para uma matéria comemorativa da sua edição 100. Pra quem me conhece, minha escolha é bastante óbvia. O pdf pode ser visto clicando nesse link (as outras duas opções eram Os Pássaros ou Bambi. Longa história...)

De clippings atrasados: a coleção Ficção de Polpa foi destaque (de capa!) do Caderno 2 do jornal A Tarde, da Bahia - faz um tempo já, mas dá pra ver clicando aqui.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O twitter aleijou este blog

Se o twitter, enquanto microblog, serviu para alguma coisa, foi eliminar blogs que se limitam a ficar colocando post de uma linha sobre coisas legais que viram em outros blogs. O twitter tem me servido como grande fonte de links interessantes, e no geral, me poupa o trabalho de encher este blog aqui com post curtinhos e bestas sobre alguma coisa legal que encontrei na web (aliás, se alguém, por algum motivo, quiser me seguir no twitter, meu nick é @samirmachado).

Isso para explicar que atualizações aqui serão escassas, ainda que eu pretenda atualizá-lo com certa regularidade irregular. Não, não pretendo cometer um bloguicídio pela terceira vez (este aqui já é quarta tentativa de blog, os três blogs anteriores foram deletados por motivo de extrema vergonha do autor dos posts com o grau de asneirices que foi capaz de escrever ao longo do tempo. Mas dando uma revisada por alto, até que me sinto à vontade com o que postei neste aqui até agora).