terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Leituras de 2012

Ainda que a utilidade de se postar uma lista de leituras anuais me escape, e todo ano me veja fazendo a mesma pergunta, sempre há a possibilidade de que alguém venha me dizer "vi que tu leu o livro tal, o que achou?", e falar dos livros lidos é um dos poucos assuntos no qual me sinto suficientemente à vontade.

Contudo, o gosto de uma pessoa se define tanto pelo que ela gosta quanto pelo que ela detesta, então sempre aviso: aqui quem fala é alguém que não suporta a metalinguagem masturbatória do Paul Auster (tendo lido apenas a Trilogia), acha Lovecraft de um pedantismo ininteligível (contudo, adorei A cor que caiu do espaço) e ainda não entendeu o motivo de tanto frisson em cima de Bonsai.Segue a lista.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Batido, não mexido


 Minha obsessão jamesbondiana do semestre passado (nascida, em grande parte, de uma fascinação de infância pelo personagem alimentada pelo... Pateta), me tornou, ao que parece, numa referência em James Bond, ao menos o literário. O que resultou numa pequena contribuição para o especial sobre os cinquenta anos do agente com permissão para matar (e um cartão corporativo sem limites) que saiu hoje no Segundo Caderno de Zero Hora, escrito pelo jornalista Daniel Feix (que pode ser lida aqui).
Como este blog foi citado na matéria, e na possibilidade de alguém vir dar por aqui neste pedaço cinza-chumbo de espaço virtual à procura dos textos, aqui uma uma recapitulação do tema em forma de índice.
Leitores interessados em Bond devem atentar ao detalhe de que nem todos os livros possuem edições recentes em português (a maioria não, aliás), e creio que ao menos dois contos permanecem inéditos até hoje. Não é esnobismo meu, mas tendo em vista que mesmo algumas dessas edições recentes só reimprimem traduções já bem antigas, a obra de Fleming (como, claro, qualquer outra), é melhor aproveitada se lida no original em inglês.
Os livros seguem a ordem de publicação, não a ordem em que os li e foram postados nesse blog.

1. Cassino Royale
2. Live and Let Die
3. Moonraker (o melhor da série, na minha opinião)
4. Diamonds are Forever
5. From Russia with Love
6. Dr. No
7. Goldfinger
8. For your eyes only (que reúne os contos From a View to a Kill, For Your Eyes Only, Risico, The Hildebrand Rarity e Quantum of Solace).
9. Thunderball
10. The Spy who Loved Me
11. On Her Majesty Secret Service
12. You Only Live Twice
13. The Man with the Golden Gun
14. Octopussy and The Living Daylights (que reúne os contos Octopussy, The Property of a Lady, The Living Daylights e 007 in New York).
The James Bond Dossier, de Kingsley Amis, e outras efemérides.

P.S.: sendo também bibliófilo, colecionar essas lindas edições do centenário de Ian Fleming, publicadas pela Penguin em 2008, foi uma motivação a mais na leitura, embora ainda me faltem quatro livros para que a coleção se complete (o que, talvez, não aconteça tão cedo,já que desde que a Penguin perdeu os direitos sobre a série, esse ano, e a edição saiu de catálogo, eles tem se tornado particularmente caros).

P.S.: para aficcionados, recomendo darem uma olhada em Bond Lifestyle, site que reúne as referências de todas as bebidas, carros, relógios, roupas e demais pequenos e grandes luxos que o personagem utiliza, tanto nos livros quanto nos filmes.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Queer list

A certa altura começo a me dar conta que a grande maioria dos protagonistas dos romances que leio são homens ou mulheres héteros - mesmo quando a História, os biógrafos e as más-linguas já tiraram o autor do armário algum tempo - então fica-se nessa ausência de uma voz literária com que se possa identificar num nível mais visceral. Digo, ok, Vathek do Wiliiam Bedford (chatíssimo) consta sempre nos, hm, anais da literatura gay por associação e metáfora, e o Billy Budd do Melville é um (excelente) tratado sobre homoerotismo reprimido e repressor, que só não entra na listinha abaixo por não ser um livro abertamente gay (e nem vamos entrar na questão do “capítulo de Ishmael e Queequeg na cama” em Moby Dick). Mas entre o Satyricon e Wilde há esse grande silêncio de mensagens em código ou decadentismo intencional, que no geral acho meio frustrante, e após isso, tudo parece meio moderno demais para ser canônico. Como leitor fico meio perdido. Amigos e conhecidos comentaram recentemente comigo que tem a mesma dificuldade de ir atrás desse tipo de leitura, então talvez a listinha abaixo esteja cumprindo um serviço de utilidade pública.

A primeira dificuldade de compilar uma “lista de leitura gay” é que, se for pesquisar em sites de livrarias o que surge é um catatau de subliteratura romântica barata ao estilo Júlia/Bianca/Sabrina. Outro problema é a questão de gueto: no momento em que se aplica uma etiqueta, cria-se uma noção de gênero que parece mais diminuir do que engrandecer uma obra, como se ela só pudesse ser entendida sob aquela ótica (um problema comum, imagino, com ficção científica, mas isso é outro assunto). Ou seja, essa listinha de leitura resumes-e a reunir livros que tenham um tema em comum, como, por exemplo “livros com dinossauros” (aliás, uma outra obsessão sazonal minha, que já passou).

Então, para montar essa seleção, que venho lendo aos poucos desde o ano passado (nem só de James Bond vive o homem, afinal), me vali de muita wikipédia, sugestões de amigos, e folheando alguns livros aleatórios encontrados na Amazon, que se propõem a compilar versões mais extensas dessa lista. A lista segue por ordem alfabética de nome do autor).

• Abel Botelho, O Barão de Lavos, (1891). Não li ainda (não encontro edição). Em tese, é o primeiro romance em lingua portuguesa sobre homossexualidade (já que precede O Bom Crioulo em quatro anos), ainda que o faça no âmbito de doença.

• Adolfo Caminha, Bom-Crioulo (1895). Não li ainda. Considerando que a intenção do autor ao escrever um livro sobre marinheiros gays era ofender a marinha brasileira, está longe de ser exatamente um must-read, exceto talvez pelo valor histórico.

• Allan Hollinghurst, A Linha da Beleza (The Line of Beauty, 2004). Lido. Descobri esse livro naquele 1001 Livros para Ler antes de Morrer, que com todas as suas falhas como lista, ao menos serve para se descobrir coisas novas. Já falei desse livro numa sugestão de leitura pro rascunho, o final me destruiu como poucos livros conseguiram fazer (book hangover tremenda), e acrescento que, se houvesse prova para tirar habilitação gay (ou alvará da prefeitura, como já disse um conhecido), esse livro seria das leituras obrigatórias - ao menos, para fantasiar que a Londres dos anos oitenta pré-Aids foi o melhor dos tempos. Próxima leitura do autor deve ser A Biblioteca da Piscina (The Swimming-Pool Library, 1983) livro anterior dele, do qual não sei o que esperar.

• André Gide, O Pombo-Torcaz (Le Ramier, 2002). Lido. Talvez eu devesse me impor a leitura de Os Moedeiros Falsos, mas ando preguiçoso com calhamaços e, no mais, esse conto curtinho vale não só pelo lirismo com que Gide descreve uma transa (o “pombo-torcaz” do título é o rapaz com que Gide passou uma noite de 1907 e com o qual só lhe faltou atingir o nirvana, tendo o apelidado assim porque arrulhava como um pombo após o sexo), mas também pelos apêndices, na troca de cartas entre Gide e um amigo que mostra como o autor, ainda na primeira metade do século XX, aceitava-se sem traumas.

• Bernardo Carvalho, O Filho da Mãe (2009). Lido. Na prática, quase todo livro do Bernardo Carvalho poderia entrar nessa lista (e já li quase todos), já que personagem enrustido e identidades espelhadas são elementos comuns, mas talvez pela metáfora entre duplos e quimeras (ou por finalmente alguém explorar uma história na onipresença de soldados russos em filmes pornôs) tenho vários motivos para fazer desse livro um dos meus favoritos.

• Christopher Isherwood, Um Homem Só (A Single Man, 1964). Lido. Tenho que admitir que só fui atrás  depois de ver o filme - que, aliás, acho melhor que o livro, por mais que goste do livro (aqui, um trecho). Aliás, por mais fiel que a adaptação seja, ambos tem tons bem distintos (George é um tanto mais misantropo no livro, e o tom geral, mais pessimista). Mas pretendo ir atrás de mais coisa dele, especialente depois de ver a Cláudia Raia no Cabaret (adaptado do Berlin Stories, que deve ser livro seguinte dele que lerei).

• Edmund White, Um Jovem Americano (A Boy’s Own Story, 1982). Não li ainda, segue na fila, recomendado pelos 1001 livros para ler antes de morrer.

• James Baldwin, Giovanni (Giovanni’s Room, 1956). Não li ainda, segue na fila. Carol Bensimon me falou muito bem desse aqui.

• Jean Cocteau, O livro branco (Le livre blanc, 1928). Não lido ainda. Nunca lancado no Brasil, me deixa uma dúvida: ler na tradução para o inglês, ou para o português de Portugal?

• Jean Genet. Nossa Senhora das Flores (Notre Dame des Fleurs, 1942) ou Querelle de Brest (Querelle du Brest, 1953). Estou em dúvida entre qual dos dois começar. Gosto muito do filme do Fassbinder, mas por outro lado, talvez o Nossa Senhora já me foi recomendado por amigos. Uma hora decido.

• Oscar Wilde, Teleny, ou o Reverso da Medalha (Teleny, or, The Reverse of the Medal, 1893). Não li ainda. Não tinha interesse, me parecia chato por motivos completamente supérfluos, mas um amigo me garantir que não é, e entrou para a lista.

• William S. Burroughs, The Wild Boys: a book of the dead (1971). Lido. É complicado tentar explicar esse livro, no tanto que eu gosto muito dele, e no tanto que não tenho certeza se entendi alguma coisa. Mal há uma história conectando as muitas vinhetas aleatórias, mas se há, seria mais ou menos isso: num mundo pós-apocalíptico, um movimento revolucionário de adolescentes-gays-meio-selvagens-que-transam-feito-bichos pretende derrubar a civilização ocidental, ou o pouco que resta dela vivendo em grandes cidades-estado voltadas ao hedonismo. A isto mistura-se a história de um garoto nos anos 30 seduzido para o movimento, e um vírus que espalha-se através de uma imagem. A música do Duran Duran (e o clipe) é inspirada nesse livro, se servir de referência. A história continua, ainda mais confusa, em Port of Saints (1973), que não gostei tanto, e há certa relação vaga com The Place of Dead Roads (1983), que começou interessante e terminou sem sentido (foi quando desisti de Burroughs por um longo tempo).

• Yukio Mishima, Confissões de uma Máscara (Kamen no Kokuhaku, 1949). Mishima foi uma sugestão do Rafael Jacobsen, e a história do adolescente japonês que, no meio da Segunda Guerra, vê surgir uma distancia cada vez maior entre desejos reprimidos e a máscara social que usa, parece ser meio biográfica. É um livro bonito e sensível, ao mesmo tempo que é denso e pesado (as fantasias sádicas do narrador beiram a psicose), mas por mais que eu tenha gostado, não me atraiu para o resto da obra do Mishima.

Essa lista está sujeita a acréscimos futuros, e sugestões serão bem-vindas.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Encerrando Bond

Em acréscimo aos catorze livros da série, fez parte da minha maratona também a leitura de The James Bond Dossier. Um ltanto raro, que Kingsley Amis escreveu em 1965 movido em parte por sua admiração da obra de Fleming, e em parte como provocação acadêmica - Amis queria dar o mesmo tratamento sério que a academia geralmente dedicava à Alta Literatura para uma série de livros considerados como literatura comercial e menor.
O livro se destaca pelo tom bem-humorado, analítico e de mente aberta com que aborda a obra de Fleming, seus pontos fracos e seus pouco reconhecidos pontos-fortes. Muito das minhas opiniões sobre os méritos dos livros que expus nos post anteriores foram, de certa forma, direcionadas pela visão aberta por Amis (alguém já publicou por aqui Lucky Jim?).
Os capítulos dividem a análise em torno dos principais totens da série: as relações de Bond com as mulheres, o chauvinismo de Fleming, o padrão de comportamento dos vilões, comida e bebida, o efeito Fleming” enquanto estilo, com o uso de informações precisas sobre temas obscuros , a relação pátria-e-pai com M.
Há ainda três apêndices avaliando temas : a ficção científica em James Bond, o sadismo, e o escapismo, alem de um gráfico que planifica treze livros da série (o décimo-quarto, Octopussy and the Living Daylights, não havia sido publicado ainda) em categorias: vilão, mocinha, lugares visitados, capangas, plano maligno e pontos altos narrativos. Até onde sei, esse livro não teve edição em português.

Abaixo, encerrando essa série de posts,  seguem algumas listagens e coisas curiosas que descobri nos livros.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

O último Bond

Em onze de agosto de 1964, logo após o almoço, Ian Fleming sofre um ataque cardíaco e morre, deixando completo no texto, mas não na revisão, o original de O Homem do Revólver de Ouro (como foi publicado no Brasil originalmente). Há quem diga que falta no livro muito dos detalhes que Fleming tipicamente acrescentava na segunda revisão  - na época, chegou-se a questionar quanto do livro seria, de fato, de autoria de Fleming. Da minha parte, posso afirmar com segurança – eu li treze livros, não imagino que mais seja preciso que isso – de que se trata de um Fleming legítimo do começo ao fim. Se há algo de incompleto, é no avanço brusco que a trama dá de tempos em tempos, as prováveis lacunas que Fleming deixou para preencher mais tarde, mas que, ao menos, tem a vantagem de dar ao livro um tom dinâmico..

The Man with the Golden Gun
O plot: dando continuidade de onde o livro anterior parou, um James Bond desmemoriado chega à Londres após ter sofrido lavagem cerebral da KGB e tenta assassinar M, mas é impedido pelo aparato de segurança do MI6. Capturado e curado, recebe como missão para se redimir ir até a Jamaica. Lá, deve localizar e assassinar Francisco “Pistolas” Scaramanga, o Homem do Revólver de Ouro (e de três tetas), um mercenário cubano a serviço da Rússia com um plano para desestabilizar a região, através da sabotagem das plantações de açúcar do Caribe.
 
O livro: como dito, não há o que não seja um legítimo Fleming – na ação, na ambientação, nos detalhes fetichistas. Parece que, após perder o ritmo e quase flertar com a inércia em You Only Live Twice, Fleming decidiu reunir todos os elementos mais totêmicos de 007 num único livro – o que, dada as circunstâncias, dá ao personagem um final adequado, como uma grande festa onde tudo se reúnem. Os escritórios do MI6, o clube Blades, a recorrente Jamaica, e todos os coadjuvantes regulares dos treze livros anteriores batem ponto com participações ou citações: o amigo Felix Leiter, o Chefe-de-Pessoal Bill Tanner, o psicólogo sir James Molony, o maitre Porterfield, a governanta May, a secretária Moneypenny e a assistente Mary Goodnight, aqui promovido à bond-girl. Finalmente descobrimos o nome completo de M (almirante Miles Messervy) e o destino de Honey Rider após Dr. No (casada com um médico, dois filhos).

terça-feira, 24 de julho de 2012

Bonds estranhos

O que une Só Se Vive Duas Vezes (que no Brasil nunca teve esse título, sendo editado como A Morte no Japão) e O Espião que me Amava é, talvez, a tentativa de Ian Fleming de experimentar com a formula criada por ele próprio, e em alguns momentos fugindo completamente dela, fazendo do primeiro mais um guia de viagens e costumes do que propriamente uma aventura, e do segundo uma trama policial noir com uma participação mínima de Bond. Em ambos os livros, o resultado é um pouco confuso e não de todo satisfatório (em especial no primeiro), do tipo que eu não recomendaria para um leitor iniciante dos livros de Bond, mas acréscimos bacanas para os já iniciados.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Bonds menores

Quando decidi ler a obra de Ian Fleming, escolhi deixar de fora aqueles que, tanto pelos comentários no GoodReads quanto à época da publicação original, fossem considerados os mais fracos ou menos interessantes. O que não aconteceu, tornou-se vício e paciência, decidi ir até o fim. Se Viva e Deixe Morrer e Os Diamantes são Eternos tem algo em comum, além de ambos se ambientarem em solo americano, é que a falha de um é o mérito no outro, e se o primeiro traz um vilão memorável numa trama mal costurada, o segundo traz uma boa trama  que carece de vilões melhores. Ainda assim ambos possuem um bom punhado de passagens interessantes, onde o típico "efeito Flemingk é utilizado com êxito.


segunda-feira, 9 de julho de 2012

Bond #09

Chegando quase ao fim da minha maratona, Bond ensina como identificar um lote de ouro nazista, uma mulher mal-amada, o rifle favorito da KGB e um bom clube de sadomasoquismo em Nova Iorque, com o seu segundo livro de contos de Fleming, décimo-quarto e último da série.

Octopussy and the Living Daylights
Publicado postumamente em 1966, originalmente reunia apenas os dois contos do título, com The Property of a Lady sendo incluído logo mais na edição em paperback, e 007 in New York, a inclusão mais recente, inserido pela Penguin em 2002. Talvez por ser omais curto e despretensioso de todos (apenas The Living Daylights pode ser considerado um conto de James Bond dentro do padrão clássico de suas aventuras, mesmo das mais curtas publicadas em For Your Eyes Only) acabou se tornando um dos mais divertidos – não é recomendado para leitores de primeira-viagem, mas constitui-se numa deliciosa faixa-bônus para os já iniciados no universo de Fleming.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Bond #08


Após ler quatro romances, decidi ler as coletâneas de contos de Fleming para ver se me cansava dele, no que não tive sucesso: me mantive viciado, e estou perto de terminar a leitura de toda a série. Entretanto, preferi deixar os livros de contos mais para o fim dessa pequena maratona, o que significa que, sim, me aproximo da reta final e logo vou poder mudar de assunto na vida.

For your eyes only
Na primeira coletânea de contos de Fleming, James Bond ensina como beber seriamente num café parisiense, o que comer na companhia de um mafioso italiano, e o significado da expressão "quantum of solace". O oitavo livro da série reúne cinco textos escritos originalmente para uma série de TV do agente 007 que nunca se concretizou. Três deles (From a View to a Kill, For Your Eyes Only e Rísico) são missões executadas por Bond, e em duas histórias (Quantum of Solace e The Hildebrand Rarity) o personagem apenas emoldura ou testemunha a história de outros.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Bond #07

Levei nove livros para chegar naquele que, tranquilamente, é o melhor da série – logo o terceiro, que eu havia pulado por não gostar do filme (na ordem de preferência, fui escolhendo pelos filmes que gostava mais, e convenhamos que 007 contra o Foguete da Morte, aquele em que Roger Moore vai pro espaço, é constrangedor). Mas - nenhuma surpresa - o livro não tem praticamente relação com o filme, exceto por compartilhar o nome do protagonista e do vilão.

Moonraker
Há três particularidades em Moonraker que cortam a fórmula fleminguiana: é aquele em que Bond não sai da Inglaterra (toda a ação se passa em Londres, Kent e nos rochedos de Dover), é aquele em que Bond não seduz a bondgirl (ela está noiva) e é um dos poucos que revelam o que Bond faz quando não está correndo o mundo atrás de terroristas: lê relatórios chatos, despacha a papelada no escritório, almoça na cantina do prédio com o Chefe de Pessoal, disputa com os outros agentes 00 (revela-se que são somente três ao todo, 008 e 011, sendo que Bond é o agente sênior) a atenção das secretarias, restaura seu Bentley e pensa nos casos que mantém com três diferentes mulheres casadas.
Já Hugo Drax, o vilão da trama, é também o primeiro antagonista genuinamente megalômano – Fleming teve o cuidado de consultar psiquiatras para familiarizar-se com as características do comportamento de um megalomaníaco. Em Drax, já estão plantadas as sementes que derivariam em Dr. No, Goldfinger e Blofeld, e de todos os vilões até agora, é de longe o mais consistente, tanto no plano quanto no perfil psicológico.
 

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Bond #06

O quinto livro escrito por Fleming, no Brasil conhecido como Moscou contra 007, apesar de algumas lacunas no enredo, acabou se revelando uma mudança de ritmo interessante, até por ocultar o protagonista por metade da trama, além de ser o único livro em que se pode dizer que Bond executa, de fato, uma ação de espionagem.

From Russia with Love
O plot: o livro é dividido em duas partes. Na primeira, O Plano, três personagens são apresentados e desenvolvidos: o serial killer irlandês Red Grant, vivendo na Russia como carrasco-chefe da SMERSH, a coronel Rosa Klebb, chefe da própria SMERSH, e Tatiana Romanova, uma funcionária menor escolhida como isca num plano pomposamente chamado pelos russos de konspiratsia. Há ainda outros personagem menor, o enxadrista Kronsteen, encarregado de bolar o plano. A idéia é criar uma ação que cause enorme constrangimento e humilhação ao ocidente, e para isso o alvo escolhido é o serviço secreto inglês na pessoa de James Bond – responsável por melar os planos russos em pelo menos três dos quatro livros anteriores.
Na segunda parte, A Execução, Bond é convocado até Istambul, onde uma agente russa alega ter se apaixonado por sua foto nos arquivos secretos russos e pretende desertar, levando consigo uma máquina de decodificação Spektor (algo inspirado na Enigma nazista). É ali que a ação traz alguns dos elementos mais exóticos (e marcantes) da série, desde a famosa maleta 007 cheia de truques, a briga violenta e ritual entre duas mulheres ciganas, e o confronto com Red Grant à bordo do Expresso do Oriente.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Bond #05

Ler A Serviço Secreto de Sua Majestade entrou na minha lista após assistir o obscuro filme homônimo – aquele único estrelado pelo George Lazemby. Para minha surpresa (era o úitimo que me faltava assistir de todos), descobri um dos melhores da série, e até o Casino Royale de 2006, um dos poucos fiéis ao espírito do Bond literário.

On Her Majesty Secret Service
Publicado em 1963, é o 11° da série, e o primeiro escrito por Fleming após o lançamento dos dois primeiros filmes, Dr. No (1961) e Moscou contra 007 (1962). Isso se reflete na inserção de uma descendência escocesa para Bond (em referência à Connery), e a inclusão de uma rápida participação metalingüística, quando Irma Bunt, apontando para Bond aos ricos e famosos no restaurante de Piz Gloria, comenta: “e aquela linda menina de cabelos longos na mesa grande, aquela é Ursula Andress, a estrela de cinema. Que lindo bronzeado ela tem!”.
 
O plot: continuação direta de Thunderball, Bond busca o paradeiro de Blofeld, o que (após um interlúdio de volta ao cassino de Royale) o leva à Suiça, no disfarce de um baronete especialista em heráldica, onde um conde – que pode ser Blofeld disfarçado – busca o reconhecimento de um título de nobreza, enquanto gerencia uma clinica de alergias isolada nos Alpes.
 

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Bond #04

Conhecido no Brasil como A Chantagem Atômica, o nono livro da série (e o quarto que li) marca uma mudança de adversários: com a melhora nas relações entre o ocidente e os soviéticos no final da década de cinquenta, saem de cena a SMERSH e os agentes infiltrados, entra a S.P.E.C.T.R.E. (SPecial Executive for Counter-intelligence, Terrorism, Revenge and Extortion) e o mais característico dos inimigos de bond, Blofeld.

Thunderball
Thunderball é o primeiro da chamada “Trilogia Blofeld”, completado por On Her Majesty Secret Service e You Only Live Twice. Foi primeiro escrito à seis mãos como roteiro para um filme que não chegou a ser produzido à época, e que Fleming novelizou em seguida, gerando uma disputa jurídica que complicou os direitos sobre o uso de Blofeld, a SPECTRE e o plot principal ao longo dos anos.

O plot: o roubo de armas nucleares da OTAN por uma organização terrorista internacional é descrito com certo realismo (à época). Despachado para as Bahamas por um palpite de M, Bond une-se à Felix Leiter para investigar o caçador de tesouros Emilio Largo o segredo escondido em seu iate Disco Volante, envolvendo-se com a namorada deste, Domino. Antes da trama começar de fato, há uma introdução divertida com Bond sendo forçado à freqüentar um SPA após uma péssima avaliação médica, onde cruza com um agente menor da SPECTRE.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Bond #03

O sétimo livro de James Bond foi o que escolhi para a minha terceira incursão  na obra de Ian Fleming.

Goldfinger
Como acontece quando leio muitas obras de um mesmo autor, é sempre no terceiro livro que começo a perceber mais conscientemente seus gostos estéticos e estilisticos. No caso, aquilo que Kingsley Amis batizou de "o efeito Fleming", ou seja, o "uso imaginativo da informação" aplicada com vigor e entusiasmo na descrição de biografias, equipamentos, comidas e bebidas, em geral com referências à marcas específicas. Em Goldfinger, Bond dirige um Aston Martin DB III, bebe com Goldfinger um Piesporter Goldtröpfchen Moselle, branco, safra 1953 ("nectar gelado", diz Fleming), e uma champanha Mouton Rothschild safra 1947. Na época, não faltaram críticos que riram do que consideraram uma afetação nouveau riche, embora na prática, fosse exatamente o elemento que preenchia as fantasias do público inglês recém saído dos anos de escassez da guerra. Cinquenta anos depois, mais que mero name dropping, essas referências funcionam como uma direção de arte narrativa, além de dar conta de certo aspecto sutil da personalidade de Bond: de que ele também se deslumbra com o acesso à artigos da boa-vida dos milionários malucos que persegue. Além do mais, ele sempre coloca na conta da firma.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Bond #02

O sexto livro da série foi a minha segunda escolha de leitura pelo motivo óbvio de ter inspirado o primeiro filme, mas essa escolha traz um problema menor de continuidade. Acontece que Dr. No continua exatamente de onde Moscou contra 007 havia parado, com Bond recuperando-se de um envenenamento, mas é um detalhe menor – ninguém tem duvidas de que 007 sempre sobrevive ao final.

Dr. No
O plot: o contato do MI5 na Jamaica, Strangways, e sua assistente Mary Trueblood (dois personagens introduzidos em Live and Let Die) desaparecem na Jamaica e Bond é enviado para investigar algo que M considera “praticamente férias”. Uma vez lá, Bond descobre que Strangways investigava a queixa de uma sociedade protetora de pássaros de violações no santuário natural da ilha de Crab Key, onde um tal Dr. Julius No mantém um negócio de extração de guano.

O livro: Dr. No é, na minha opinião, um dos livros seminais da literatura de aventuras, e alguém ainda precisa compilar a importância das ilhas – desertas ou particulares – na evolução do gênero. Fleming brinca conscientemente com os elementos mais sensacionalistas e apelativos de seu personagem. É fácil entender porque os produtores escolherem esse livro para iniciar a série no cinema: a trama cresce exponencialmente, de um caso banal à operação mais megalomaníaca possível, e Fleming, com suas descrições meticulosas, descreve a Jamaica dos anos cinqüenta - que ele conhecia muito bem - com tanto deslumbre quanto o sentido por Bond ao chegar ao Caribe (nota de rodapé: Fleming é o único escritor atualmente a dar nome à um aeroporto, perto de Kingston).
E, uma vez que Bond é jogado numa espécie de maratona de sobrevivência criada por No, é o livro onde o subtexto do fetiche sadomasoquista fica mais latente.
Há também um desenvolvimento interessante na figura de M como o “pai-cruel” na relação com Bond. Quando este chama à presença de ambos o major Boothroyd, chefe da divisão Q (que aparece pela primeira vez nesse livro), para que troque a tradicional Beretta 418 de Bond, que Q considera uma “arma de madame”, por uma Walther PPK, Bond aceita com relutância à essa castração simbólica (oriunda das críticas de um leitor e fã, colecionador de armas, que apontou para a inadequação dos armamentos de Bond. O leitor chamava-se George Boothroyd, e acabou batizando o chefe do departamento Q).

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Bond #01

Eu poderia estar roubando, eu poderia estar matando, (eu poderia estar lendo o Ulysses), mas sigo lendo Ian Fleming como se não houvesse amanhã. Como bem sabem meus amigos, meus gostos se movem em seqüências de obsessões, e a do momento é James Bond.
Assim, inicio aqui uma série de (nem tão) pequenas resenhas dos volumes lidos, que coloco na ordem em que li, não na ordem de publicação (que nem mesmo os filmes respeitaram).

Casino Royale

Eu havia lido dois contos (A View to a Kill e The Living Daylights, publicados naquela coleção Pocket Classics da Penguim) como introdução. Gostei do que vi ali, e Casino Royale, sendo o primeiro da série, me pareceu a escolha óbvia como ponto de partida.

O plot: LeChiffre, “a Cifra”, é um banqueiro francês que cuida dos investimentos de um sindicato que serve de fachada para operações da SMERSH, o órgão de contra-espionagem soviético, e que teve a infelicidade de investir todo seu capital em prostíbulos pouco antes do governo francês baixar uma lei anti-prostituição. Seu plano, então, é levantar fundos em um jogo de altas apostas no Hotel Esplendide, na praia francesa de Royale-les-Eaux. Sabendo disso, o serviço secreto inglês envia o melhor jogador do departamento, James Bond, para quebrá-lo no jogo. A contragosto, Bond leva uma assistente, Vesper Lynd. Quase todos os personagens recorrentes são introduzidos aqui: M, Miss Moneypenny, René Mathis e Felix Leiter.

domingo, 3 de junho de 2012

Rascunho

Acho curioso como as vezes se descobre um livro por meios completamente aleatórios, e no final das contas acaba sendo aquele livro que esmaga e reconstrói o teu espírito em trezentas páginas. Por exemplo, cansei de ver, nas minhas andanças por sebos, exemplares do A Linha da Beleza do Alan Hollinghurst, em edição da Record, e sempre me chamou a atenção pelo título, mas nunca li ninguém falar sobre esse livro. Até encontrá-lo listado naquele 1001 Livros para Ler antes de Morrer que, irregular como toda listagem, acaba tendo o mérito de servir como modo de descobrir uma penca de obras recentes que não são suficientemente comentadas ou discutidas.

Então, quando o jornal Rascunho me pediu uma sugestão de livro para a sessão Eu Recomendo da edição do mês de junho, não havia outro livro nesse semestre de leituras do qual eu quisesse falar tanto quanto desse. Se quiser ver a resenha, segue nesse link aqui.

P.S: contrariando a máxima de que escritor que quiser se levar a sério não deve sorrir na foto.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Há sombra debaixo desta rubra rocha, Drake

Se há um grande mérito nos jogos de Uncharted (e na minha opinião, há muitos) é o modo como trabalham os clichês do gênero ação/aventura de um jeito que não chega a ser inesperado (clichês nunca são), mas cheios de um vigor empolgante. Você reconhece os padrões não com o tédio da falta de idéias tanto narrativas quanto de linguagem que assolam os atuais blockbusters, mas como se redescobrisse o sense of wonder original que justificou esse clichê existir, em primeiro lugar.

E, é claro, o modo como cada fase é estruturada, sua linguagem visual que transforma a experiência num imenso plano-sequência, contribui para o seu aspecto mais próprio, a imersão. A verdade é que nenhum livro ou filme em anos recentes me deu as mesmas sensações - o deslumbramento, a vertigem, o choque-do-novo – que Uncharted me deu (principalmente o segundo e o terceiro da série, o primeiro é bastante banal). Uma prova disso: a sequência do avião de carga, em Uncharted 3: Drake’s Deception, é copiada tal e qual o climax de 007 Permissão para Matar, mas conduzida com a empolgação de quem restaurou e trocou o motor de um carro antigo de coleção. Os clichês existem por um motivo: eles funcionam, ou algum dia funcionaram. Descobrir o que os faz funcionar e jogar com isso, ao invés de simplesmente reproduzi-los, é o que faz a diferença aqui.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Dizimação

Tudo transcorre bem até que a professora enfatiza que o maior erro do homem branco é tirar o índio do seu habitat e por isso "todos deveríamos lutar pros índios voltarem ao seu estado natural, vivendo em harmonia com a natureza...". Antes dela terminar, Donato levanta a mão. Isso a desconcerta, segue-se um segundo de dúvida (é possível perceber em seus olhos), e ela lhe passa a palavra. Ele diz que ela está enganada, o melhor seria pegar até o último selvagem que se pudesse encontrar dentro da floresta e civilizá-lo, dar-lhe condições reais de "garantir sua dignidade no mundo atual em precisar do favor de ninguém, antes que se complete a dizimação". Termina dizendo que o passado não volta. A professora fica atônita, dois alunos perguntaram ao mesmo tempo "o que é dizimação, professora?", e, por sorte, o guia largou uma de suas tiradas humorísticas , e Donato foi conhecer outras partes do Museu do Índio menos propícias a seu entusiasmo.

[Trecho de Habitante Irreal, Paulo Scott.]

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Le Chevalier de Balibari

Não tenho problemas com clássicos (partindo do pressuposto que alguém tenha, e acho que muitos têm mas não admitem) da mesma forma que não tenho com literatura comercial, mas ainda assim me sinto na necessidade de explicar porquê escolheria, no catálogo dos livros infinitos disponíveis ao longo da eternidade, Barry Lyndon, um livro que não me parece ser muito comentado (exceto por ter gerado aquele filme-pintura lindo do Kubrick) nem é apontado como o mais importante do seu autor, William Makepeace Thackeray (no caso, seria A Feira das Vaidades, que gerou um filme esquecível estrelado pela Reese Inverno-Colher). Mas romance picaresco é um gosto meu adquirido pós-Quixote, e século XVIII um interesse de trabalho (é a época em que se ambienta meu próximo livro), então me pareceu uma leitura adequada para férias na beira da praia.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O Bond que descobri

Se alguma vez alguém notou um guri correndo pelas dunas de Atlântida Sul com uma maleta em mãos (“e com senha!”, gabaria-se ele), então provavelmente me viu. Dentro havia uma pistola de espoleta do tipo realista que já não se vende mais, acrescida de silenciador, um mapa (inventado) e algumas moedas. Havia também um edição em quadrinhos de “Pateta é James Bond” com uma lista completa de todos os filmes do agente 007 até então (tempos de Timothy Dalton ainda), prontamente alugados na videolocadora do bairro, e um exemplar do Manual do Detetive e do Espião da Disney. Enfim, o kit completo para o agente secreto de oito anos. Porque, aos oito anos, tudo o que Bond significava eram vilões malucos, capangas bizarros, gadgets futuristas e um herói infalível, o que se tornaria o padrão para heróis de ação em geral. Mas havia algo mais duradouro no personagem, presente de forma sutil em Sean Connery e caricaturizado em Roger Moore, no senso de humor cínico e maldoso do personagem, a sugerir que, diferente da noção compartilhada por todos os protagonistas-mirins dos filmes de aventura oitentista a que eu assistia, adultos também podem ser divertidos – se tivessem permissão para matar, claro.

Vinte e tantos anos depois, decidi dar uma nova chance à um personagem que já não me interessava tanto, começando pelos contos The Living Daylights e A View to a Kill, presentes num daqueles mini-pockets da Penguin. Na sequência, parti para Casino Royale e engatei na sequência Dr. No e Goldfinger e Thunderball (A Chantagem Atômica).

sexta-feira, 30 de março de 2012

Extra Lives

Duas notinhas: a primeira, que saiu o quarto número da revista virtual Cadernos de Não-Ficção (dá pra fazer o download aqui), editada pelo Antônio Xerxenesky, Bruno Mattos e com projeto gráfico meu. No final da revista, acrescentamos uma seção de dicas dos editores, de livros que julgamos que deveriam ser mais lidos e discutidos. Minha contribuição é a notinha que segue abaixo, uma leitura que me foi indicada pelo próprio Xerxenesky e, como muitas das indicações que ele já me fez, passo adiante a dica recomendando muito.

Extra Lives: Why Video Games Matter, Tom Bissell
Se há um livro que precisa urgentemente ser traduzido ao português, é Extra lives, do jornalista e crítico americano Tom Bissell. Bissell talvez seja um dos primeiros a mapear as possibilidades narrativas que os games oferecerem, seja comparando um cenário de guerra civil em Far Cry 2 com suas próprias experiências cobrindo guerras na África, ou seja sua luta contra o vício em cocaína ao mesmo tempo que se mantinha viciado em Grand Theft Auto 4. Bisell aborda até mesmo as possibilidades perdidas, como o rico cenário pós-apocalíptico de Fallout 3 prejudicado por diálogos mal-escritos. E coloca a questão: sendo a própria natureza do jogo a de criar obstáculos a serem superados para o avanço da narrativa, para onde ele pode evoluir? Ou, citando sua experiência com Bioshock: que muitos games possuem mais inteligência formal e estilística do que conseguem lidar, mas alguns ainda patinam em inteligência moral, emocional e temática.

terça-feira, 27 de março de 2012

Tarzã

Tarzan of the Apes, Edgar Rice Burroughs
Uma das dificuldades ao se ler um livro que já conta com um número razoável de adaptações é conseguir se desfazer de todos os elementos pré-concebidos que ele carrega. Tarzan é, talvez, o personagem mais adaptado que já se tem noticia, talvez depois do Drácula, com tantos momentos icônicos para a cultura popular do século vinte – os filmes com Johnny Weissmuller, os quadrinhos desenhados por Burne Hogarth, um desenho de longa-metragem da Disney – que chega a ser um pouco frustrante, por exemplo, saber que não existe macaca Chita no livro original, tampouco a frase “mim Tarzan, você Jane”, e ao final você percebe que o Tarzan que você conhece – que você acha que conhece – é na verdade um processo criativo e coletivo que se desenvolveu ao longo de um século inteiro por inúmeros autores diferentes, o mesmo que acontece, por exemplo, com os super-heróis de quadrinhos.

O livro pode ser dividido em duas partes: a primeira desenvolvendo o background do personagem – os pais, Lorde e Lady Greystoke, testemunhando um motim a bordo do navio e sendo deixados num ponto perdido da costa africana, onde seu filho vem a nascer e os pais morrerem, e como todo mundo sabe, o bebê passa a ser criado por gorilas – não por gorilas comuns, mas por uma raça superior, que já desenvolve rudimentos de linguagem e cultura próprias. A primeira metade, mostrando a infância e a adolescência do personagem, é aquilo que tornou Tarzan um mito: seus duelos contra outros animais – leões, leoas, gorilas de tribos rivais e da sua própria tribo – são narrados com o vigor e a violência de arregalar olhos num menino de onze anos em busca da heróis viris e aventuras escapistas.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Sabia desde pequeno que não teria que enfrentar a sua condição enquanto não demonstrasse nem inteligência nem mérito. Enquanto não ameaçasse os outros, não teriam o que temer. É esse o objetivo de toda discriminação, não é? Que cada um se contente com o que tem e se mantenha em seu lugar. Que as barreiras não sejam ultrapassadas.
[Bernardo Carvalho, O sol se põe em São Paulo.}

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Leituras do 2° semestre

Esse blog anda meio abandonado e meio morto, aqui vai um post zumbi, para não deixar incompleto o censo de leitura anual (aquele senso de dever que alguém com um blog sente que tem consigo mesmo enquanto fala sozinho).

• A guerra dos Tronos, George R. R. Martin (Leya)
• Youth, Joseph Conrad (Penguin Modern Classics)
• A página assombrada por fantasmas, Antonio Xerxenesky (Rocco)
• Mil-folhas: história ilustrada do doce, Lucrecia Zappi (Cosac Naify)
• Billy Budd, Herman Melville (Cosac Naify)
• Teatro, Bernardo Carvalho (Companhia das Letras)
• 24 Letras por Segundo, vários autores (Não Editora)
• Estrela Distante, Roberto Bolaño (Companhia das Letras)
• Scott Pilgrim contra o mundo v. 3, Brian Lee O'Malley (Quadrinhos na Companhia)
• Primeiro Amor, Samuel Beckett (Cosac Naify)
• Extra Lives: Why Videogames Matter, Tom Bissell (Pantheon)
• Matadouro 5, Kurt Vonnegut (L&PM)
• Babylon Revisited, F. Scott Fitzgerald (Penguin Modern Classics)
• Suíte Dama da Noite, Manoela Sawistki (Record)
• Todos morrem no final, Carlos Gerbase (Sulina)
• Solar, Ian McEwan (Companhia das Letras)
• The Lost World, Michael Crichton (Knopf)
• Casino Royale, Ian Fleming (Penguin)
• Crônicas I - Para Gostar de Ler, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, • Paulo Mendes Campos, Rubem Braga (Ática)
• Contos Completos, Flannery O'Connor (Cosac Naify)
• League of Extraordinary Gentleman: Black Dossier, Alan Moore e Kevin O'Neill (ABC)
• York Notes on 'Atonement', Anne Rooney (Longman)