quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Good to see you, Mr. Sharpe

Antes mesmo de começar a ler A Devastação de Sharpe, eu sei que o tenente Sharpe receberá uma missão, será traído, conhecerá uma mulher cuja vida correrá perigo a certo momento, sofrerá algum cerco mas no fim, irá se vingar do vilão e conquistar o reconhecimento do general Wellesley, o Duque de Wellington. O que varia é que, por ser baseado em batalhas reais – nesta aqui, a retomada da cidade do Porto pelas tropas inglesas após a invasão francesa que provocou a fuga da família real para o Brasil – cada batalha possui suas particularidades, o modo como isso joga com os padrões que o próprio Cornwell estabeleceu para as suas histórias é o que acaba tornando a mistura interessante.
Nisso retomo uma conversa de gtalk com o Fredy, em que comentávamos que, depois de se ler uma seqüência de bons autores, é irritante identificar os vícios de “linguagem best-seller” dos escritores mais populares. Porém, argumentei, não sinto isso quando leio os livros de Bernard Cornwell. Cornwell tem seus próprios clichês e usa quase sempre os mesmos arquétipos, mas pra mim, identificar eles é mais um conforto do que uma irritação – conforto esse semelhante ao que tenho quando leio contos de Sherlock Holmes. A repetição de tipos, situações e linguagem de seus livros seriados – além de umas três trilogias de temas diferentes (Rei Artur, Cruzadas, Vikings), ele tem cerca de vinte livros com o personagem Richard Sharpe – me provoca uma agradável sensação de familiaridade. No fundo, é o prazer do entretenimento juvenil-testosterona do herói de capa-e-espada de aventuras seriadas, em versão atualizada à sensibilidade moderna – a descrição da flecha perfurando o olho de um soldado e indo parar ao trincar o osso do crânio pelo lado interno foi algo que me marcou. Ou, antes de me horrorizar com algumas descrições de A Estrada, eu já tinha me horrorizado com um bebê decapitado erroneamente, logo no início de O Rei do Inverno.
E o ponto mais forte de qualquer livro de Cornwell, em comparação com outros autores best-seller (Michael Crichton é o meu padrão de comparação, Dan Brown, o fundo do poço), é que Cornwell faz seus personagens ou muito frios, ou muito passionais. Quando o herói sofre, sofre horrorosamente, é humilhado absurdamente, pra se reerguer e se vingar violentíssimo dos inimigos (Arthur cortando fora a mão dos filhos que o traíram, Sharpe jogando seu rival para os tigres no calabouço do Sultão Tipu, etc). E termino o livro ansioso pelo episódio seguinte.

3 comentários:

fábio disse...

Muito bom ler isso, Samir. Ultimamente tenho visto muitos livros da série do Sharpe e andava querendo lê-los, mas tinha dúvidas. Agora, só de ler seu post, fiquei bem aliviado. Vou começar a ler a série! :-)

Fábio disse...

E, sim, Crichton também é o meu padrão-ouro de qualidade e Dan Brown, tudo-aquilo-que-não-se-deve-fazer-na-hora-de-escrever-um-bestseller. ;-)

Samir Machado de Machado disse...

Fábio, se vai ler Cornwell, sugiro começar pelo Rei do Inverno, primeiro livro da trilogia dele sobre Rei Artur. O favorito dos fãs e do próprio Cornwell.

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