quarta-feira, 27 de julho de 2016

Turismo, estética e política

Ilustração do Vitruvius Britannicus, or The British Architect,
do arquiteto escocês Colen Campbell, catalisador da estética
neoclássica na Inglaterra.
Para entender um período histórico, é preciso entender o zeitgeist da época, o que a sociedade de então enxergava como ideal, e como chegou a essa conclusão. Quase sempre é fruto do acaso: como quando o arquiteto do Rei de Nápoles, em 1738, foi preparar o terreno de um novo palácio próximo do Vesúvio e encontrou as ruínas de uma cidade romana.

A palavra turista vem do inglês tourist, que por sua vez surgiu da expressão tour, "volta". O turista é aquele que vai e volta de viagem (ao contrário daquele que morre no meio do caminho, como provavelmente ocorria com quem tentasse fazer isso antes do século 18 na Europa). Viajar com o objetivo de conhecer outras culturas para compará-las com a sua foi um conceito potencializado pelo Iluminismo, e pela descoberta, em 1738, das ruínas de Herculano. Alguns anos depois, seria encontrada Pompéia, e a moda pegou de vez. Pode parecer absurdo hoje, mas até então não se percebia uma clara distinção entre o que diferenciava a antiguidade grega da romana, por exemplo. Aquelas cidades enterradas eram um convite ao estudo e à descoberta.

Encontrar cidades romanas em tão perfeito estado de conservação, num século que já questionava abertamente o papel da Igreja na sociedade, criou uma ponte direta com o passado. Com um passado clássico que se acreditava puro, limpo e imaculado da corrupção papal. Passou a se acreditar que a educação de um cavalheiro só estaria completa após uma grande volta, ou Grand Tour, pela Europa, para entrar em contato com as culturas da Antiguidade Clássica, num século em que já se tornava um pouco mais seguro andar de um país ao outro sem ser morto no caminho. O resultado foram arquitetos, pintores e decorados descobrindo a arquitetura greco-romana e a trazendo de volta para seus países. Aos poucos, o barroco passou a ser visto como problemático: cheio de excessos decorativos e sobreposições sufocantes, num paralelo (na visão protestante) com os excessos supersticiosos dos países católicos, com suas adorações de santos, relíquias e amuletos. 

E no caso de uma Europa que está sempre em conflito interno, católicos contra protestantes, no momento em que alguém for decorar sua casa, está fazendo também uma escolha política. A Inglaterra possuía um pretendente católico ao trono, exilado na França. Portugal via os protestantes como hereges (mas tolerava os ingleses, que no geral dominavam o comércio). Ao investir numa fachada de inspiração neoclassica ou barroca, poderia se estar fazendo uma declaração de apoio a um lado ou outro.

Um comentário:

Queen Elizabeth disse...

lembrei disso tb: http://reversedludovicotechnique.tumblr.com/post/140855806615/yi-fu-tuan

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