A primeira dificuldade de compilar uma “lista de leitura gay” é que, se for pesquisar em sites de livrarias o que surge é um catatau de subliteratura romântica barata ao estilo Júlia/Bianca/Sabrina. Outro problema é a questão de gueto: no momento em que se aplica uma etiqueta, cria-se uma noção de gênero que parece mais diminuir do que engrandecer uma obra, como se ela só pudesse ser entendida sob aquela ótica (um problema comum, imagino, com ficção científica, mas isso é outro assunto). Ou seja, essa listinha de leitura resumes-e a reunir livros que tenham um tema em comum, como, por exemplo “livros com dinossauros” (aliás, uma outra obsessão sazonal minha, que já passou).
Então, para montar essa seleção, que venho lendo aos poucos desde o ano passado (nem só de James Bond vive o homem, afinal), me vali de muita wikipédia, sugestões de amigos, e folheando alguns livros aleatórios encontrados na Amazon, que se propõem a compilar versões mais extensas dessa lista. A lista segue por ordem alfabética de nome do autor).
• Abel Botelho, O Barão de Lavos, (1891). Não li ainda (não encontro edição). Em tese, é o primeiro romance em lingua portuguesa sobre homossexualidade (já que precede O Bom Crioulo em quatro anos), ainda que o faça no âmbito de doença.
• Adolfo Caminha, Bom-Crioulo (1895). Não li ainda. Considerando que a intenção do autor ao escrever um livro sobre marinheiros gays era ofender a marinha brasileira, está longe de ser exatamente um must-read, exceto talvez pelo valor histórico.
• Allan Hollinghurst, A Linha da Beleza (The Line of Beauty, 2004). Lido. Descobri esse livro naquele 1001 Livros para Ler antes de Morrer, que com todas as suas falhas como lista, ao menos serve para se descobrir coisas novas. Já falei desse livro numa sugestão de leitura pro rascunho, o final me destruiu como poucos livros conseguiram fazer (book hangover tremenda), e acrescento que, se houvesse prova para tirar habilitação gay (ou alvará da prefeitura, como já disse um conhecido), esse livro seria das leituras obrigatórias - ao menos, para fantasiar que a Londres dos anos oitenta pré-Aids foi o melhor dos tempos. Próxima leitura do autor deve ser A Biblioteca da Piscina (The Swimming-Pool Library, 1983) livro anterior dele, do qual não sei o que esperar.
• André Gide, O Pombo-Torcaz (Le Ramier, 2002). Lido. Talvez eu devesse me impor a leitura de Os Moedeiros Falsos, mas ando preguiçoso com calhamaços e, no mais, esse conto curtinho vale não só pelo lirismo com que Gide descreve uma transa (o “pombo-torcaz” do título é o rapaz com que Gide passou uma noite de 1907 e com o qual só lhe faltou atingir o nirvana, tendo o apelidado assim porque arrulhava como um pombo após o sexo), mas também pelos apêndices, na troca de cartas entre Gide e um amigo que mostra como o autor, ainda na primeira metade do século XX, aceitava-se sem traumas.
• Bernardo Carvalho, O Filho da Mãe (2009). Lido. Na prática, quase todo livro do Bernardo Carvalho poderia entrar nessa lista (e já li quase todos), já que personagem enrustido e identidades espelhadas são elementos comuns, mas talvez pela metáfora entre duplos e quimeras (ou por finalmente alguém explorar uma história na onipresença de soldados russos em filmes pornôs) tenho vários motivos para fazer desse livro um dos meus favoritos.
• Christopher Isherwood, Um Homem Só (A Single Man, 1964). Lido. Tenho que admitir que só fui atrás depois de ver o filme - que, aliás, acho melhor que o livro, por mais que goste do livro (aqui, um trecho). Aliás, por mais fiel que a adaptação seja, ambos tem tons bem distintos (George é um tanto mais misantropo no livro, e o tom geral, mais pessimista). Mas pretendo ir atrás de mais coisa dele, especialente depois de ver a Cláudia Raia no Cabaret (adaptado do Berlin Stories, que deve ser livro seguinte dele que lerei).
• Edmund White, Um Jovem Americano (A Boy’s Own Story, 1982). Não li ainda, segue na fila, recomendado pelos 1001 livros para ler antes de morrer.
• James Baldwin, Giovanni (Giovanni’s Room, 1956). Não li ainda, segue na fila. Carol Bensimon me falou muito bem desse aqui.
• Jean Cocteau, O livro branco (Le livre blanc, 1928). Não lido ainda. Nunca lancado no Brasil, me deixa uma dúvida: ler na tradução para o inglês, ou para o português de Portugal?
• Jean Genet. Nossa Senhora das Flores (Notre Dame des Fleurs, 1942) ou Querelle de Brest (Querelle du Brest, 1953). Estou em dúvida entre qual dos dois começar. Gosto muito do filme do Fassbinder, mas por outro lado, talvez o Nossa Senhora já me foi recomendado por amigos. Uma hora decido.
• Oscar Wilde, Teleny, ou o Reverso da Medalha (Teleny, or, The Reverse of the Medal, 1893). Não li ainda. Não tinha interesse, me parecia chato por motivos completamente supérfluos, mas um amigo me garantir que não é, e entrou para a lista.
• William S. Burroughs, The Wild Boys: a book of the dead (1971). Lido. É complicado tentar explicar esse livro, no tanto que eu gosto muito dele, e no tanto que não tenho certeza se entendi alguma coisa. Mal há uma história conectando as muitas vinhetas aleatórias, mas se há, seria mais ou menos isso: num mundo pós-apocalíptico, um movimento revolucionário de adolescentes-gays-meio-selvagens-que-transam-feito-bichos pretende derrubar a civilização ocidental, ou o pouco que resta dela vivendo em grandes cidades-estado voltadas ao hedonismo. A isto mistura-se a história de um garoto nos anos 30 seduzido para o movimento, e um vírus que espalha-se através de uma imagem. A música do Duran Duran (e o clipe) é inspirada nesse livro, se servir de referência. A história continua, ainda mais confusa, em Port of Saints (1973), que não gostei tanto, e há certa relação vaga com The Place of Dead Roads (1983), que começou interessante e terminou sem sentido (foi quando desisti de Burroughs por um longo tempo).
• Yukio Mishima, Confissões de uma Máscara (Kamen no Kokuhaku, 1949). Mishima foi uma sugestão do Rafael Jacobsen, e a história do adolescente japonês que, no meio da Segunda Guerra, vê surgir uma distancia cada vez maior entre desejos reprimidos e a máscara social que usa, parece ser meio biográfica. É um livro bonito e sensível, ao mesmo tempo que é denso e pesado (as fantasias sádicas do narrador beiram a psicose), mas por mais que eu tenha gostado, não me atraiu para o resto da obra do Mishima.
Essa lista está sujeita a acréscimos futuros, e sugestões serão bem-vindas.