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terça-feira, 6 de agosto de 2013

A curta história do ∫ longo

Sempre tive uma relação de apego tipográfico com a letra “S” por motivos óbvios (é a inicial do meu nome) e afetivos de infância (o “S” do Super-Homem, o $ do Tio Patinhas, etc). Quando comecei a pesquisar obras setecentistas para o meu livro, acabei outra vez me debatendo com as particularidades da letra S em si, ao me confrontar com o S longo.



Letras, aparentemente, também saem de moda. Sem que houvesse um acordo ortográfico específico, em algum momento do século XIX impressores desistiram de usar o S longo, e não os culpo (o Diccionario da Lingua Brasileira de Luiz Maria da Silva Pinto, de 1832, já não registra mais o uso) . Na versão minúscula regular, a letra é praticamente idêntica ao f minúsculo (⌠ ), exceto pela ausência do “braço”, aquele raminho no meio que caracteriza o f. Em alguns casos, o S longo possui apenas o “braço” esquerdo, e não cruzado como no f, o que deixa ainda mais confuso (ou seja, alem de tudo, é maneta). Ao menos, na versão em itálico, ele fica mais parecida com o que se espera de um s ( ∫  ).

A aplicação do S longo é ainda mais confusa: a princípio, ele era utilizado quando a letra “s” minúscula vinha no começo ou no meio da palavra, mas não no fim (nesse caso, se usava o “s” minúsculo como ele é hoje). Na abertura da frase, valia o S maiúsculo de sempre.

O resultado disso é que, ao se ler um texto impresso no século XVIII, a impressão que eu tinha era que todos os narradores eram fanhos (uma impressão que passei para um dos meus personagens). Contudo, após alguns testes, acabei usando o S longo em alguns trechos muito específicos do livro (três, ao todo), em que se reproduz o português do século XVIII. Imagino que o leitor terá que ler esses trechos muito devagar, como uma criança sendo alfabetizada (ou, como eu fiz no começo, imaginar que o narrador ficou fanho, o que é sempre válido). Não sei dizer se algum livro em português usou o S longo nos últimos cem anos, mas é um risco bom de se correr.

Pode-se fazer um teste com esse trecho abaixo, retirado da abertura de Viagens d’Altina, escrito por Luiz Caetano de Campos – um livro que pode ser melhor descrito como a resposta portuguesa, ainda no século XVIII, para as Viagens de Gulliver.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

A tipografia nacional original


Um pequeno detalhe extra-literário, mas de importância estética crucial no meu livro - e que, creio, seja de interesse histórico para quem se interessa por tipografia - é que a fonte em que ele foi composto tem uma história muito bacana.

Frontispício do Relação de Entrada
Começamos do princípio. Em 1747, o impressor português Antônio Isidoro da Fonseca chegou ao Brasil por motivos obscuros (fugindo da Inquisição, dívidas, punição por crimes menores, entre muitas possibilidades). O certo é que por vantagens financeiras, certamente não foi (e não mudou muita coisa nos ultimos dois séculos e meio). A existência de uma oficina tipográfica era proibida no Brasil, o que não impediu Fonseca de criar uma oficina tipográfica no Rio de Janeiro, de onde saíram comprovadamente três obras. O primeiro foi A Relação da entrada que fez o Excelentíssimo e Reverendíssimo Bispo D. Fr. Antonio do Desterro Malheyro, Bispo do Rio de Janeiro […] (o título é enorme, à moda das obras setecentistas). Literariamente, a importância do impresso é nula. Mas o fato é que foi, até que se prove o contrário, o primeiro livro publicado no Brasil, mais de meio século antes da vinda da família real e do estabelecimento da imprensa régia.

Pule-se duzentos e cinquenta anos no tempo. O projeto Brasiliana USP conta com um pequeno grupo de trabalho entitulado "Resgates Tipográficos", que se dedica à recuperação de fontes tipográficas utilizadas em livros históricos e sua adaptação para uso nos computadores modernos. Dentro desse projeto, a arquiteta Laura Benseñor Lotuffo desenvolveu uma família de fontes tipográficas digitais inspirada na “Relação da entrada [...]” e nos tipos empregados por Isidoro da Fonseca, sob orientação da Professora Dra. Priscila Lenas Farias. A família chama-se, apropriadamete, "Isidora".

Segundo a própria Laura Lotuffo, em entrevista para o site do Brasiliana, "o caráter aparentemente improvisado e pouco refinado do impresso, despertaram um interesse investigativo sobre a produção da obra e a história do próprio Isidoro da Fonseca".

Esse improviso é visível ao longo de todo o livro. No entanto, alguns aspectos tipográficos se destacam; particularmente, o ‘til’ sobre o ‘O’ de ‘RELAÇAÕ’ que é, na realidade, um ‘J’ em corpo menor girado em 90 graus, e o cedilha deslocado abaixo de ‘C’, que se assemelha a um ‘s’ com a parte superior cortada. Esses elementos improvisados, assim como o aspecto geral do material impresso, traduzem ‘tipograficamente’ as circunstâncias nas quais foi impresso, de maneira clandestina, às pressas, numa oficina recém aberta e, provavelmente, cujo funcionamento ainda ocorria com um certo grau de improviso. Espero que o desenvolvimento da família ‘Isidora’, – o processo e não só o resultado final – tenha contribuído no sentido de resgatar esse ‘espírito’ que existiu no passado editorial brasileiro.

Com a publicação de Quatro Soldados, a fonte Isidora estará sendo aplicada pela primeira vez num livro de ficção.

Um artigo detalhado sobre Antonio Isidoro da Fonseca e o Relação de Entrada, de autoria da própria Laura Lotuffo, pode ser lido aqui.

Uma entrevista com Laura Lotufo sobre a criação da fonte Isidora, pode ser lida aqui.

"Relação de entrada que fez o excellentíssimo, e reverendíssimo sr. D. F. Antonio do Desterro Malheyros, bispo do Rio de Janeiro, em o primeiro dia deste prezente ano de 1747, havendo sido seis Annos Bispo do Reyno de Angola, donde por nomiação de Sua Magestade, e Bulla Pontifícia, foy promovido para esta Diocesi" pode ser lido aqui.

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