Comentários que me sinto compelido a fazer, após um mês inteiro dedicado à leitura da biografia colossal de Hitler feita pelo historiador inglês Ian Kershaw:Mike Conroy, numa análise do impacto da Segunda Guerra nas histórias em quadrinhos, classificou Hitler em seus 500 Comic Book Villains como “o supervilão definitivo”. De fato, esses cinquenta ou sessenta anos de filmes, quadrinhos e séries de aventura e guerra, ao mesmo tempo que diluiram o nível real de demência do pensamento nazista (é curioso ver, por exemplo, a evolução do discurso antissemita nazista: se num primeiro momento os judeus são uma raça inferior, num segundo, são sub-humanos, mais adiante são vistos como animais, e mais para o final da guerra, referidos apenas em termos bacteriológicos), engrandeceram Hitler ao nível superhumano de vilania. Assim como no filme A Queda! (que Kershaw, por sinal, elogiou publicamente), o Hitler que sai dessa biografia é devidamente reduzido não apenas ao nível humano, mas ao ponto do patético: o egocentrismo megalômano de quem passou a acreditar na própria propaganda e perdeu a relação com a realidade, a pessoa mais tediosa e repetitiva de sua época para qualquer conversa que não fosse sobre si mesmo, a alienação completa do contato humano (jamais visitou um hospital de guerra, uma area bombardeada, no mais próximo que chegou de feridos, pediu pra fecharem a janela).
Duas lembranças: num depoimento nos extras do dvd de A Lista de Schindler, uma sobrevivente do Holocausto conta como, para poupar balas, soldados assassinavam crianças pequenas girando-as pelas pernas e batendo suas cabeças contra paredes (cena que aparece depois no Maus de Art Spiegelman). Numa notícia lida faz alguns anos, quando da visita de Angela Mekel à Israel, na primeira vez que um chefe de estado alemão visitava o país, vários parlamentares do Knesset levantaram-se em protesto, indignados por “a língua do inimigo ser pronunciada dentro do parlamento”.