terça-feira, 15 de março de 2011

Hitler

Comentários que me sinto compelido a fazer, após um mês inteiro dedicado à leitura da biografia colossal de Hitler feita pelo historiador inglês Ian Kershaw:
Mike Conroy, numa análise do impacto da Segunda Guerra nas histórias em quadrinhos, classificou Hitler em seus 500 Comic Book Villains como “o supervilão definitivo”. De fato, esses cinquenta ou sessenta anos de filmes, quadrinhos e séries de aventura e guerra, ao mesmo tempo que diluiram o nível real de demência do pensamento nazista (é curioso ver, por exemplo, a evolução do discurso antissemita nazista: se num primeiro momento os judeus são uma raça inferior, num segundo, são sub-humanos, mais adiante são vistos como animais, e mais para o final da guerra, referidos apenas em termos bacteriológicos), engrandeceram Hitler ao nível superhumano de vilania. Assim como no filme A Queda! (que Kershaw, por sinal, elogiou publicamente), o Hitler que sai dessa biografia é devidamente reduzido não apenas ao nível humano, mas ao ponto do patético: o egocentrismo megalômano de quem passou a acreditar na própria propaganda e perdeu a relação com a realidade, a pessoa mais tediosa e repetitiva de sua época para qualquer conversa que não fosse sobre si mesmo, a alienação completa do contato humano (jamais visitou um hospital de guerra, uma area bombardeada, no mais próximo que chegou de feridos, pediu pra fecharem a janela).
Duas lembranças: num depoimento nos extras do dvd de A Lista de Schindler, uma sobrevivente do Holocausto conta como, para poupar balas, soldados assassinavam crianças pequenas girando-as pelas pernas e batendo suas cabeças contra paredes (cena que aparece depois no Maus de Art Spiegelman). Numa notícia lida faz alguns anos, quando da visita de Angela Mekel à Israel, na primeira vez que um chefe de estado alemão visitava o país, vários parlamentares do Knesset levantaram-se em protesto, indignados por “a língua do inimigo ser pronunciada dentro do parlamento”.


E nisso estava, e está, meu interesse sempre renovado pelo tema da II Guerra e o nazismo, que essa biografia de Hitler trabalha tão bem: não apenas a noção de um abismo moral tão absoluto, que é impossível de ser assimilado ou compreendido. Mas um patamar tão colossalmente desumano, que é impossível de ser perdoado ou relativizado (ainda em A Lista de Schindler, há uma cena onde Schindler, com a lista das pessoas qeu salvará da morte certa em mãos, diz ao seu contador: "esta lista é um Bem absoluto"). E quanto mais os valores são relativizados hoje em dia (e mais as pessoas esquecem-se de que relativizá-los não as exclui de ter que, no final das contas, escolher um ou outro), mais pertinentes se tornam episódios da História a servirem de âncora, a lembrar não apenas que há extremos irrecuperáveis, como uma sociedade inteira disposta a abraçá-los, quando levada não pelo ódio profundo (embora ódio profundo fosse um elemento importante de parte da sociedade alemã da época), mas, acima de tudo, pela indiferença.
Hitler sempre foi Hitler no tanto que sempre foi uma caricatura de si mesmo. Mas outro mérito do livro é apontar como chegou onde chegou. Kershaw contextualiza perfeitamente a Alemanha da época. A única e verdadeira habilidade de Hitler, o discurso de ódio, cheio de acusações ao governo e aos interesses escusos do status quo sustentados por todo tipo de teoria conspiratória e ultra-preconceituosa proferida em tom messiânico, não era diferente, em essência, do discurso de uma Sarah Palin, pra ficar num exemplo moderno ocidental, ou de qualquer político evangélico, pra ficar num exemplo moderno bem brasileiro. O que mostra a atualidade e a necessidade de se pensar o impacto de qualquer discurso de ódio.

P.S.: fator decisivo para que eu conseguisse terminar a leitura em apenas um mês, a prosa simples, direta, fluída e meio irônica de Kershaw. A única coisa que não tem jeito é o peso, mesmo. Não dá pra ler sem apoiar o braço em algum lugar.

2 comentários:

fred disse...

vou ler!
gostei basntante do seu comentário!

Enzo disse...

recentemente alguém no twitter estava falando que a literatura tem o poder de nos transformar, de nos fazer enxergar "o outro", e aí alguém rebateu: "hitler era leitor. um grande leitor". Nessa biografia fala alguma coisa sobre o hitler leitor?

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achei tão tolkien essa coisa da Merkel trazer à Valfenda a língua de Mordor kkk

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